Uma Reflexão sobre Alteridade e Tolerância   1 comment

“O direito da intolerância é, portanto, absurdo e bárbaro; é o direito dos tigres, é realmente horrível, porque os tigres não dilaceram senão pra comer, enquanto nós nos dilaceramos por causa de alguns parágrafos.”

Voltaire em O Tratado sobre a Tolerância

Estarreci-me ao ler o livro Imagens do Brasil1, um material histórico, para mim, por revelar nosso rosto em nossas atitudes hipócritas a partir de nossas leituras tão parciais de nós mesmos. Estarreci-me não com a crueldade descritiva da elite intelectual brasileira, aquela que diz o que devemos pensar e como devemos definir nossa etnologia. No livro, por exemplo, é exposta a farsa da nossa história escrita nos livros didáticos, e como nossa auto-imagem é irreal, tudo isso imerso no clima de comoção produzido durante a fraquíssima festa comemorativa dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, que, entre outros malefícios, mostrou como relegamos os índios, os verdadeiros descobridores do Brasil, à condição de coadjuvantes na construção de uma nação.

Na verdade, minha tradição estudantil sempre foi de esquerda (antigamente parecia valer a pena), já tinha acesso a essas informações, menos pormenorizadamente, claro. Minha indignação está no fato de eu me perceber dentro de um discurso parecido dentro do ambiente religioso evangélico brasileiro. Não queria ter que admitir que somente há identidade percebendo-se a alteridade. Eu sou indivíduo se, e somente se, perceber-me no coletivo. O outro pode ser minha antítese e pode ser meu espelho.

Sou indivíduo social. Como indivíduo, tenho origem, desenvolvimento, história e identidade. No entanto, identidade é gerada por causa do social e não do isolamento. É a alteridade, a exata qualidade do que é outro2, relação entre os indivíduos em suas diferenças, que produz a identidade. Em miúdos, o outro me faz indivíduo e dá a mim minha própria identidade. Eu posso ser (não poderíamos restringir nossas complexidades em mais uma definição) uma resposta às perguntas não verbais que o outro me faz. Pensar essas questões a partir da ótica das Ciências analíticas do comportamento humano, lançar um olhar não amedrontado, receoso, sobre o homem e suas relações através dos olhos da ciência ou da filosofia, é relativamente aceitável. Relativamente, porque ninguém é completamente isento. Todos pensamos e produzimos baseados no que construímos, ou construíram em nós. Podemos ser livres e ágeis em nossas criações, sejam elas quais forem, mas, sempre desenvolvemos novos referenciais a partir de alguma base externa a nós.

E dentro do ambiente religioso evangélico nacional atual, acreditar que o outro nos forma indivíduos é uma tarefa complicadíssima. Simplesmente, por não aceitarmos isso. A primeira pergunta que surge é: quem é esse outro? Se for o outro, antítese de mim, publicanos e pecadores, jamais! Nossas redomas nos protegem dos tais para que não nos influenciem. Esse outro não tem competência para me dizer quem eu deva ser. Se o outro for meu diferente, doutrinariamente, muito mais intolerável será para mim! E não falo apenas dos fundamentalistas com relação a nós, os que queremos ser livres para pensar. Mas de nossa relação de tolerância com os outros, inclusive os próprios fundamentalistas. Diante de tudo o que tenho absorvido, nesses últimos anos, por exemplo, tenho tentado aprender sobre como seria ser cristão no período anterior ao Cânon. Um terceiro outro é o meu igual, embora sempre outro, é aquele que não oferece distorções maiores de pensamento, ou dificuldades relacionais. Esse outro também me altera. Mas, como comecei a argumentar, não é nada fácil para nós aceitarmo-nos a mercê do que não nos seja firme sob os pés. Seria possível aprendermos com quem condenamos?

Esbarramos, portanto, no conceito de tolerância. No seu inquietante Tratado sobre a Tolerância3, de 1762, Voltaire, expõe uma sociedade de religiosidade pútrida e hipócrita, visível nos rostos dos magistrados, clérigos e não, tanto Católicos quanto protestantes. O ensaio é uma expressão livre e vibrante da opinião do polêmico filósofo francês sobre a sentença arbitrária de tortura e morte, na terrível roda, para o comerciante Jean Calas, um protestante de 68 anos com sérios problemas motores. Debaixo de uma comoção incrível da comunidade católica, este teria sido acusado de matar o próprio filho, Marco Antônio, um rapaz perturbado. Foi um julgamento ridículo baseado unicamente na intolerância ao outro. Calas, o pai, se tornou um bode expiatório de todas as guerras de pensamentos, dogmas e costumes comuns daquela região. O filho, o morto, muito provavelmente suicidado, tornou-se mártir para os católicos, com direito a canonização não-oficial, inclusive. O pai, o condenado, fora acusado de fazer parte de uma conspiração, juntamente com lideres protestantes, a mulher e a empregada, que teriam estrangulado o rapaz simplesmente por ele não querer abraçar a sua doutrina. A partir daí, uma sucessão de insanidades e aberrações.

Tolerar é muitíssimo difícil. Basicamente, somos intolerantes. É compreensível por ser a fórmula mais eficiente para a auto-preservação. Intolerar, guarda a própria identidade incólume. Tolerar afeta, modifica, recria e humilha.  Não acredito que sejamos tolerantes realmente. Somos, em minha opinião, desesperados por aprender a tolerar. Porque tolerar, mesmo, significaria muito mais do que bons discursos. Envolveria respeito a todo diferente. E a única regra de obsevância seria a Graça de Deus. Porque Este é o referencial a partir. Vem dEle toda a possibilidade de amor e aceitação. Há outros referenciais com. Gente e experiências orgânicas que facilita, complementam. O primeiro é base e o segundo é companhia, recurso de reflexão.

Estou partindo de minhas próprias reflexões no meu próprio ministério. O outro para quem tenho olhado, hoje, é aquele que precisa de mim, de meus recursos, de minha capacidade, quer estejam dentro da igreja, quer não. Elienai Cabral Júnior deu uma definição clara do que seria ser um pastor: As pessoas da comunidade procuram o modelo de SER cristão. Pastor é o exemplo mais transparentemente imitável. Eu diria, ainda, que pastorear é ajudar, facilitar, fazer com que as pessoas vivam melhor as suas próprias vidas para a glória de Deus. E deixar as pessoas viverem suas próprias vidas é impossível sem tolerância.

Quando comecei a escrever sobre esse tema, por causa de uma conversa que tive com uma irmã que está sendo preparada para ir a outro continente, muito menos favorecido do que o nosso,  como missionária, talvez uma das experiências que mais nos ensinam tolerância, não percebi o quanto ainda terei que escrever. E missões é apenas um dos pontos para os quais precisamos retornar nossos olhares. Concluiria com uma pergunta: A tolerância irrestrita é realmente possível?

Entendo que estamos nós somente no caminho de uma atitude menos intolerante.

EDNEY MELO

1 Imagens do Brasil – Modos de ver, modos de conviver – César Guimarães et al, Editora Autêntica.

2 Dicionário Aurélio, verbete

3 Tratado sobre a Tolerância, Voltaire, Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal, Editora Escala.

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Publicado 16 de maio de 2008 por edney em Uncategorized

Uma resposta para “Uma Reflexão sobre Alteridade e Tolerância

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  1. Edney, que viagem!

    Em tantas coisas, acho que, a tolerância deva ser aplicada não as pessoas, e sim às suas atitudes.

    Pelo que eu entedi, de todo, eu não posso ser um ser tolerante! (e confesso que não sou, mesmo) Mas ainda na minha intolerância, consigo ter atitudes de tolerância.

    Não sou um ser, de todo, tolerável, pois certamente provocarei em outro ente, seja ele pessoa ou na natureza, atitudes não-tolerante.

    Um caso que poderá ser estudado sobre este assunto é o “Tolerância Zero”, empregado em NY, para conter a onda de violência por lá.

    Abração, querido!

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