A Fé e o Absurdo – Fácil em Abraão, Indefinível em Jó

Por causa de diversas conversas e textos produzidos, aqui no Ceará, sobre fé e ouvindo a frase do Pastor de minha igreja e professor do ICEC, Iran Coutinho: “A fé de Jó é melhor do que a fé de Abraão”, senti-me desafiado a compará-los. Percebi quanto tentamos interpretar esses dois homens a partir de nossa prática de facilitar os conceitos para simplificar questões existenciais debaixo de conceitos e expressões do tipo: “Basta ter fé como Abraão. Creia na promessa, olhe para as estrelas!”, ou, quando a resposta demora a chegar: “Espere como Jó. Ele foi fiel até o fim e teve tudo em dobro!” Lemos equivocadamente a biografia bíblica desses dois personagens. Não é possível reduzir a vida a conceitos tão simples. Como eu queria ter um botão vermelho para apertar e ter soluções automáticas para tantos, problemas existenciais dentro das comunidades com as quais eu convivo. Não somente nas comunidades, mas em minha própria vida.

A fé é sempre absurda. E o Absurdo não é necessariamente o ilógico. É o que escapa a regras e a condições determinadas. É uma quimera, o que deu origem para esse termo, um animal mitológico grego que tinha a cabeça de leão, o corpo de cabra e a calda de dragão. Essa representação não é completamente inconcebível, apenas para além de nosso alcance. Absurdo não é o puramente irracional, é o inalcançável. E a modernidade traz para a ciência e a razão apelando para o absurdo, para o inalcançado.

“O pensamento pós-metafísico é o que ignora qualquer discurso que se
pretenda estável, objetivo e absoluto. A grande guinada do pensamento
humano da modernidade para os nossos dias é a generalização da recusa
ao discurso absolutista”.

Elienai Cabral Júnior “A Dúvida Amordaçada”

A fé de Abraão apela para o absurdo, quando ele tem que sair da sua terra, Ur dos caldeus, levantando uma estrutura grandíssima, em direção a uma terra que deveria ser mostrada a ele ainda – e sob a orientação de um Ser invisível. Não havia uma referência tangível permanente sobre a qual ele fixasse seus olhos para prosseguir. Até a referência visual que Jeová deu para ele, foi um céu escuro. As estrelas na sua quantidade, eram inalcançáveis. Os altares que são construídos, não por um anjo em suas jornadas, mas pelo próprio Abraão. Seria uma incoerência Deus ser adorado por si mesmo. Na sua relação conosco, precisamos entender quais nossos papéis. O de Abraão era obedecer e crer na promessa de que seria o pai de nações.

A mudança do seu nome de Abrão para Abraão e de sua esposa de Sarai para Sara, foi o maior memorial permanente de sua promessa. Outro fato que mostra Abraão contemplando o absurdo, diz respeito ao sacrifício de seu filho, o cumprimento da promessa. Jesus dissera que Abraão viu o seu dia e se alegrou. Provavelmente, estaria falando do sacrifício de Isaque. Por que não acreditar no absurdo de que Abrão, olhando seu filho deitado sobre o feixe de madeira, não estaria vendo o Cristo deitado sobre a cruz? Absurdo, não?

A relação de Jó com o absurdo era diferente da de Abraão. Ele não teve nenhuma promessa, nenhuma referência visual, nenhuma mudança de nome. Apenas o absurdo indefinível da sua relação com Deus por uma fé mais intimista, menos estereotipada. Jó não teve visões ou sonhos proféticos, não foi visitado por anjos, não teve conquistas bélicas, não teve a cumplicidade e o apoio da mulher, mesmo que tentando adiantar o cumprimento da promessa através da provocação da gravidez de uma escrava, havia apenas o vazio, a aniquilação. A matéria-prima da “crença” de Jó era seu íntimo referencial de integridade própria e a consciência de um Ser, que nunca havia visto, mas ao qual era dedicado com sinceridade, além disso, nada. Não havia alças ou paredes nas quais se apoiar enquanto coçava suas purulentas feridas com um caco de telha.

E as perguntas que faço a mim mesmo, depois de décadas de fé, são: haveria disposição interior de prosseguir na vida sem promessas divinas? É possível crescer ao lado e em direção a um Deus que não fizesse por mim o que meus anseios pediriam? E mais: eu amaria o absurdo? Apelaria para ele em função de uma construção pessoal interior? Geralmente, simplificamos tais questões dizendo que Jó teve o dobro de tudo o que possuía, depois, inclusive filhos. Na verdade, essa não é uma resposta plausível. Simplesmente porque não existe nenhuma razão anterior para que crêssemos que Jó poderia esperar por isso. Jó cria por querer crer. Ele esperava por um Redentor que se levantaria no fim – e talvez no fim de sua vida terrena, ou até depois da sua morte. “Nu saí do ventre da minha mãe, nu para lá voltarei!” significa para mim que ele não achava que sobreviveria.

Prefiro querer ser como Jó. Não que eu não acredite em promessas. Na verdade, Deus tem preparado os Novos Céus como uma promessa para o porvir. O que eu não quero é acreditar por causa das promessas. Quero acreditar em um Amor que me assombre e em uma presença que me estarreça. Essa para mim é a fé de Hebreus 11.1 e 2: “Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos. Pois foi por meio dela que os antigos receberam bom testemunho.” E os antigos, nesse texto, eram, muitos deles, mártires. Esses “homens dos quais o mundo não era digno”, olhavam para o “Invisível”. Esse invisível não era apenas uma esperança futura. Era o Deus Invisível. A Esperança que acompanha. Uma batalha estava diante de Moisés e o povo de Israel (Ex 33). Deus estava muito zangado com o povo e não queria ir, mandaria um anjo. Moisés disse a Ele que não iria sem a sua presença. Não vale nada um milagre sem a presença de Deus. Na verdade, Moisés abriu mão do milagre pela presença de Deus. Se o mesmo episódio ocorresse hoje, preferiram o milagre.

Quero ser como Jó. Inicio, aqui, uma série de textos sobre Abraão e Jó. Devo passear ainda por idéias como: Abraão e Jó – a promessa que gera Fé e a ausência que gera a Fé; Abraão: Fé e Prática; Jó: A dança no vazio. Mas quero andar com Abraão, também. Agora, não tenho apenas um pai para minha fé – tenho dois.

Mas acho que é só o começo desses meus devaneios sobre esses dois pais.

EDNEY MELO

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