O Sonho Morreu

Sempre achei que a vida fosse uma escadaria. Começa no nascimento e evolui, gradativamente, em etapas definidas, e, obrigatoriamente, obedecidas. A vida, pensava eu, poderia facilmente ser dissecada. Eu poderia comparar os fatos de pessoas diferentes, analisar efeitos e resultados, definindo, com precisão cirúrgica, as melhores frases a serem utilizadas nos aconselhamentos. Afinal, todo divórcio é igual e todo filho adolescente de pais separados é, em tese, problemático.

 

Achava que poderia reduzir a vida às minhas experiências e observações das histórias de pessoas que me cercaram. Como Freud (não tenho graduação nem cacife para criticá-lo), que construiu, brilhantemente, suas teorias a partir da cidade de Viena, achava que conseguiria olhar o mundo e resolver os problemas existenciais de quem me procurava, através da janela da minha casa, que só permite, obviamente, eu ver aquele trecho pequeno da rua, aquelas pessoas que transitam por ali, ouvindo apenas o mesmo sotaque. Mas, infelizmente, para o fracasso de minhas análises psicossociais-de-banco-de-igreja, a vida não é uma escadaria, onde os que estão embaixo sabem exatamente o que fazer e os que estão acima podem olhar para baixo e dizer aos que estão atrás como é fácil. A vida é uma jornada.

 

Uma jornada densa, difícil, indefinível e extraordinária. Essa jornada é tão fora das possibilidades de previsão, que, o máximo possível para ela, é criar um plano de propósitos. As variações criadas, a cada manhã, para a decorrência de decisões e projetos é incrível. Eu já me permiti a algumas jornadas literais. Uma delas teve 68 quilômetros. Começamos, despreparados, às 7 horas da noite, e fomos até as 2 horas da tarde do dia seguinte. Por mais que fôssemos conhecedores dos processos, com um mapa na mão, olhando sempre em direção às curvas e retas muito bem definidas pelo asfalto, tudo era imprevisível e delicado no caminho. Primeiro, sob o luar lindo e frio, depois, debaixo do calor fortíssimo. Ah! Sertão Cearense! A mesma paisagem era vista completamente diferente por cada componente do grupo, sem mencionar cada caminhante em tantas e tantas jornadas que passaram pelas mesmas paisagens, vendo os mesmos rios, casas, animeis e vegetações. Multiplique, agora, isso pelos metros dos 68 quilômetros que nosso grupo percorreu e teríamos descrições infinitas!

 

A vida é uma jornada. Nela, tentamos sonhar. Sonhar é ter esperança. O sonho é um fato que a gente vê sem estar vendo e sente sem estar sentindo. Muito antes de realmente vermos ou sentirmos. Já até senti aromas que só existiam em minha imaginação, projetada para anos à frente. Um sonho pode nascer e morrer.

 

Eu vi um sonho morrer. Foi uma semana difícil. Tive na segunda que conduzir o funeral de um homem de 86 anos, vítima de câncer, após dois anos de sofrimento, e outro, na quarta, de uma criança de um dia, Arthur. Recebi a comunicação do falecimento dele e fui ao hospital, onde estava a mãe, Maria. Entrei no quarto. Estava ao lado de uma amiga. Quando ela me viu, chorou um choro doído, amargo, contorcendo-se como quem tem um filho, mas que não está ali. Ele não vem mais, já foi. Carinhosamente, eu a abracei e começamos a orar. Apenas sentimos, juntos, a presença do Espírito Santo. Não há palavras de consolo. Apenas a dor e a consciência da Presença.

 

Quando o pai chegou, eu também o abracei. O Marcos estava tentando ser forte para a esposa, para conseguir consolá-la. Chorou em separado ao meu lado. Também, ali, não havia palavras. Apenas mais um abraço doído. Acompanhei todo o procedimento de funeral. Num texto anterior, recomendo que aprendamos a olhar o rosto dos mortos. Enquanto o funcionário da funerária cumpria os procedimentos, olhei fixamente o rosto do bebê, de mãos postas. Um sonho havia morrido. Um projeto para toda uma vida estava definitivamente consumado, antes mesmo de começar.  Olhando para aquela pequena face, concluía que ele nunca andaria, falaria, brincaria, namoraria, faria uma faculdade, constituiria família, envelheceria e… morreria velho. Lidar com uma realidade como essa é horrendo. Sonhando acordado por cada um dos dias de gestação, as certezas eram claras. Agora, não havia mais nada. Somente um silêncio ensurdecedor, enquanto olhava aquele pai, fixamente, para seu sonho morto.

 

Lidar com o fim não é para nós. Nós nos alimentamos das possibilidades de continuidade. Algumas vezes, infelizmente, não há como continuar. Apenas o fim. E na jornada da vida, fim significa fim. Não existem apelos para ressurreição de determinados projetos, iniciados ou não. O que torna mais amarga essa sentença, é o fato de, no retrato real que tracei nesse texto, o projeto ter carne e osso. Mas a mesma vida que termina, também está disposta a desenhar quadros diferentes, por causa da jornada. Se nessa caminhada encontro o fim de uma senda, posso, ou voltar, ou procurar por outra ainda não trafegada por ninguém, que se possa seguir. Arthur está morto. Mas alguém precisa continuar vivendo.

 

É preciso encarar a morte do sonho olhando para a vida. Ela está aqui. Caso contrário, seríamos meros guardiões de memórias dolorosas, que, acumuladas, pesarão, grandissimamente, sobre nosso futuro. Há vida após a morte. Mesmo que tentemos recomeçar. E Deus é especialista em recomeçar. Nós, nem tanto. Aliás, “recomeço” é uma palavra subutilizada. Até para mim, que escrevo, é um desafio hercúleo. Para recomeçar é preciso admitir o fim, primeiro. E isso ninguém quer. A atitude nossa de cada dia com relação à jornada da vida precisa admitir a possibilidade do sonho, a sua manutenção e seu término. E, se o término, admitir um reinício qualquer, provavelmente, imprevisível. Saltando em direção à vida de forma menos dura, menos ríspida, menos cruel e mais leve, mais graciosa, mais compreensiva.

 

Impossível caminhar na jornada da vida sem a morte. Impossível a morte, para quem fica, não trazer renascimento. Marcos, seu filho se foi. Mas a jornada em que você, a Maria e sua filha, Amanda, estão, sequer chegou na metade.

 

Crendo que há vida após a morte,

  EDNEY MELO 

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