Vá a Funerais

 

Esse será, e escrevo isso com um certo pesar, o artigo menos lido ou, simplesmente, ignorado, que já escrevi. Esse tema não é simpático, não conduz a gritos de alegria, ou a gargalhadas imersos em emoções de pessoas com rostos cintilantes. Mas não posso me esquivar desse tema, em função de minhas experiências como Pastor. Nesse ofício, teria um relatório imenso expondo as mais diversas reações humanas decorrentes dos momentos experimentados na jornada da vida. São, por exemplo: o dia da festa dos quinze anos, o dia do noivado, a cerimônia do casamento, a apresentação da filha, a festa do “Doutores do ABC”, os quinze anos, o dia do noivado dela… e, o funeral de alguém amado. Precisamente sobre esse último vou discorrer. 

        

Os funerais são eventos espetaculares. Dificilmente se aprende com eles por causa do preconceito e do inerente medo individual que temos da morte. Acompanhei muitos funerais e oficiei outros tantos. Tenho algumas lições para compartilhar. Eu o farei em forma de conselhos que seguem.

 

Tente entender a dor da morte. Acompanhei os últimos dias de um ex-safoneiro, famoso antigamente, músico incrível e pai de amigos meus. Eu ia ler a bíblia e tocar canções antigas e novas que talavam do conforto de Deus. Periodicamente estava lá em sua casa com sua família e outros amigos. Seu câncer avançado o consumia lentamente. Semana após semana, estive com eles. Nos primeiros dias, em sua casa, ele ainda andava, depois, passou a receber-nos sentado, em seguida deitado, e, já nos seus últimos dias em um quarto de hospital.

 

Havia dor, mas não havia amargura. Apesar do ambiente choroso, leveza e conforto. Aquele homem, antes tão forte patriarca, estava reduzido a um semi-ser, com quase uma quarentena de quilos enrolado em um lençol que cobria essa extrema magreza. Eu, sentado ao lado, iniciava as canções que, em várias vozes, num coral improvisado, tornava o ar ainda mais terno. De repente, ele começou a sussurrar alguma frase. Paramos de cantar com o cuidado reverente de quem quer ouvir as últimas palavras que estaria tentando falar. Sua filha que ouviu, sorriu suavemente e disse: “ele está dizendo que a segunda corda do violão está desafinada”. Todos caíram em uma deliciosa gargalhada. Essas foram as últimas palavras que ouvi desse irmão tão querido e tão respeitável, que, por alguns instantes foi capaz de reutilizar seus dotes de músico, como se ele mesmo estivesse tocando em vez de mim. Aprendi com ele que a dor não me tira a vida.

 

Olhe bem para o rosto do morto. Quando chegar a um funeral, por mais doloroso que seja, exceto em casos em que, por algum motivo, não seja possível, pare alguns minutos diante do corpo. Aquela pessoa que está inerte naquela sala, com tantos ao redor, já teve uma história de vida, as vezes retratada nas nuances de sua face. Sinais de velhice como as rugas ou a limpa pele de uma pessoa jovem, precocemente levada, falam. Olhando para o seu rosto, podemos imaginar se esse alguém teve tempo para fazer tudo o que gostaria de ter feito, se conseguiu concretizar seus projetos, ou perdeu seus anos em uma história triste sem sonhos. Se, no caso de alguém mais jovem, esperava, ou estava preparado para sair da vida. Se no dia seguinte houvera marcado um encontro, ou dito “até logo” para o colega de trabalho na tarde anterior.

 

Fiz isso certa vez, no funeral de uma grande amiga minha, pastora, levada, a meu ver antes da hora – aos 47 anos – em pleno exercício do seu ministério. Foi ao hospital para uma cirurgia considerada simples e morreu em poucos dias de infecção generalizada.  Incrível, ter se despedido, docemente, de um de seus irmãos, outro pastor, acenando para ele e indicando, com o dedo indicador para cima, a direção de onde esperava estar. Dormiu. Seu coração simplesmente parou antes de qualquer intervenção cirúrgica. Seu rosto frio falava. Falava de serenidade e de uma vida dedicada, satisfeita consigo mesma. Dizia também que a tragédia não deve assustar, deve desafiar, pode, e traz, dor, mas não é o fim. Olhando seu semblante, eu não quis fazer perguntas.

 

Observe a reação dos amigos do morto. Alguns acariciam os cabelos e olham com olhar meio perdido. A impressão deixada é de quem está lembrando daquele sorriso ou daquela traquinagem, ou daquele jeito de andar, ou daquela manhã de sol no parque, ou daquele abraço de partida. Tive uma experiência que já me retornou à mente muitas vezes. Foi o funeral de uma garota de 26 anos.

 

Ela estava grávida quando foi atendida, às pressas, e morreu, juntamente com seu bebê, menos de uma semana depois do chá de Baby. Gostaria apenas de transcrever o que uma de suas amigas, a Naiara, escreveu para ela:

 

Por quê ou Pra quê ?

Na verdade, durante toda essa catastrófica semana estive me perguntando o porquê de tantos sonhos ceifados, mutilados, esquecidos…

Talvez eu nunca entenda, ou talvez eu entenda um dia… Porque Deus permitiu que uma linda jovem se fosse.

grávida de seis meses,

um dia depois de seu aniversário,

com sonhos a se realizar,

com um futuro a percorrer.

 

E ainda mais…Por que não escutou minhas orações, orações de uma igreja inteira que clamava e chorava a pedido de um milagre…

 

São muitos os questionamentos! Mas eu percebi ontem naquele cemitério diante daquele corpo inerte que a Dani teve vida mais que abundante, percebi que TODOS os seus projetos tiveram êxito, e principalmente percebi que Deus cuida de nossos sonhos… E assim Ele fez com a Dani, agiu nas circunstâncias… Ela foi mãe até o último momento (como sonhava!) e o seu sonho levou junto com ela! Deus não permitiria Dani sem Caio e Caio sem Dani… Não era esse o sonho dela! Ela queria cuidar, ser mãe, sentir a maternidade…E embora nós tivéssemos feitos planos posteriores, esse era genuinamente um sonho dela…

E é assim que Deus faz…Ele age nas circunstâncias, nos momentos, na dor, quando pensamos que ele está calado é porque o grito da nossa alma está abafando a voz mansa dEle que diz: “Chora minha querida, chora… Eu te consolo.”
Talvez eu nunca entenda o por quê de tudo isso… Mas o pra quê eu estou vivendo hoje:
Para que eu me aproximasse dos meus pastores, Dos meus amigos de pequeno grupo, do meu discipulado, para que eu voltasse a ver a beleza da flor, O milagre da vida,

A sinceridade do amanhecer… Para que eu desse valor a pequenas coisas que eu havia esquecido…
Talvez eu nunca entenda o por quê de tudo isso… Mas vou refletir e exercitar o “PARA QUÊ” tudo isso aconteceu… Tudo o que sei é que o Senhor é soberano!!!

 

Em voga, aqui, não estão questões teológicas a respeito da soberania de Deus ou a eficácia da oração. Apenas a reação de quem ama quem partiu. Uma pessoa que estava nos dias anteriores sorrindo e dançando, e, repentinamente, foi procurada e já não estava lá. Tentei consolar a Naiara e os seus amigos apenas com um abraço. Que palavras poderiam ser ditas?

 

Ouça atentamente os depoimentos. Esse é um momento muito importante, mais para quem fala do que para quem ouve. Viajei algumas centenas de quilômetros para acompanhar uma amigo à sua cidade natal, onde seria o sepultamento de sua avó de 87 anos. Ao chegarmos à igreja, notei algo que geralmente não via acontecer em funerais de anciões, quando suas famílias prestam homenagens conformadas e o choro é mais comedido. Diante daquele corpo, vi quase uma centena de pessoas, entre elas, vários chorando fortemente. Entendi o porquê por causa dos depoimentos.

 

Aquela era uma matriarca daquela igreja. Fora a primeira pessoa a se converter na cidade e ajudara a trazer o evangelho para toda a sua família. São quatro gerações. Além disso, o que me impressionou naquele acontecimento, foi a presença de quatro pastores, dois deles vindos de outras cidades, ganhos para o evangelho por intermédio daquela senhora. Cada depoimento a respeito do que ela fizera e o quanto se tornara, inquestionavelmente, amada por tantas pessoas de tantas gerações, apenas chorei.

 

Segure a alça do caixão. Quem conduz esse momento, na verdade, não o faz como quem Leva um objeto apenas. Segurar a alça e conduzir o féretro é participar e honrar o significado daquela vida que se foi.

 

Senti orgulho em ser o primeiro da fila direita a ajudar a carregar aquele esquife. Impavidamente, andei pelas ruas daquela cidade – o costume no interior do Ceará é conduzir o cortejo a pé até o cemitério. Para mim, estar ajudando aquela família naquele simples gesto indicava minha participação na vida daquela mulher. Não me imaginei homenageando-a tardiamente. A extensão da sua existência, estava representada ao meu lado em um de seus netos, que segurava outra alça. Aquele momento melhorou meu sentido de vida.

 

Não despreze o cemitério. A famosa “terra dos pés juntos” também é um lugar de aprendizado. Ali, jazem as mais diversas histórias, documentadas ou não. Ao caminhar entre aqueles dizeres, cada data remonta uma época, um motivo, uma chance de fazer a diferença bre a terra, perdidaos ou bem aproveitada.

 

Minha avó morreu aos 97 anos de idade. Passou por todos os acontecimentos importantes do século passado: a primeira e a segunda guerras mundiais, a implantação e a queda do Estado Comunista russo, os governos de tantos presidente, inclusive todos os generais e cruzou o século até 2006. No entanto, não é sobre ela esse artigo. Mas sobre o que fizera minha mulher no seu funeral.

 

De cabeça baixa, ela não viu que estava seguindo o cortejo errado. Acabou, sem perceber, no enterro de outra pessoa. Alguém perguntou para ela se conhecia certa canção sobre perfume e mãos. Ela, prontamente, começou a cantar, seguindo-a na cantoria aqueles que choravam o morto. Depois de cantada a primeira, pediram outra. Novamente, ela entoou mais uma música, novamente acompanhada pelos chorosos parentes. Só então, ela, depois de procurar por mim e pelos meus parentes, sorrindo, pediu desculpas a quem estava perto dela pela intromissão. Ao invés de se sentirem violados, agradeceram o seu conforto. Cemitério é lugar de dor, minha e dos outros. Não posso andar por aquele lugar, ou encarar os que têm que estar ali por causa de parentes e amigos, de qualquer jeito. Cemitério é lugar de respeito.

 

A morte é um enigma não resolvido, uma estória de fim mal definido. Leio o salmo 23 de outra forma. A sombra da morte não precisa ser a minha. Pode ser que estar à sombra da morte, seja andar no vale de outra pessoa e aprender com isso. Não será a última vez que escreverei sobre eles, sei que tenho muito a aprender com os mortos. E tomara que você não tenha medo ou os evite. Hoje mesmo, pode ser um de nós o próximo.

 

Aprendendo com quem respira e com quem não mais,

 

Pr Edney Melo

 

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