Luc Ferry, em uma entrevista recente a uma revista de circulação nacional, apresentando o seu livro Famílias, amo-vocês*, deposita a sua esperança na valorização familiar para um futuro melhor do mundo. Segundo Ferry, apesar de toda a corrosão dos valores tradicionais e de toda a revolução produzida no ocidente durante o século XX e de toda a barbárie vivida hoje, o passado da família mundial, anterior a estas fases, era muitíssimo pior. Ele acredita que o amor pelos cônjuges e pelos filhos é absolutamente possível, incluindo as realidades modernas dos padrastos e madrastas. Ele vê na individualização, humanização particularizada e não necessariamente em soluções sociais de âmbito universal, a saída para a construção de uma família mais feliz.

Para gente como eu, que tem que lidar com a perda da esperança e sua reaquisição, isso continuamente, em numerosas vezes, acontecendo esse processo na mesma família, lê com alívio o que um pensador tão extraordinário escreve. Conseguimos olhar para o futuro com crédito. No entanto, as questões citadas no título desse artigo, obrigam-nos a olhar com severa responsabilidade para o nosso presente. Quem poderia arriscar um comentário? Uma formulação melhor para essa pergunta, seria: Quem não arriscaria um comentário? Todos ficamos revoltados com o fato de um pai, até o que sabemos, bem educado, de classe média, advogado, poder ter matado a filha, e, um rapaz, como esses que entregam pizza nas nossas casas, ou sentam ao nosso lado no banco do ônibus, ter atirado e provocado a morte daquela do lado de quem queria viver.

O mal pode ser residente, silenciosa e sorrateiramente como se fosse um vírus, um hospedeiro corrosivo de si e capaz de revelar males horríveis através de uma ação insana e destrutiva? Há uma onda malígna, uma nuvem escura da maldade que atinge o ser humano comum, ou como um demoniozinho sobre o ombro esquerdo que dialoga com o anjinho que está no outro ombro pela posse da vontade do pobre e desavisado próximo contraventor? A reflexão que levanto, aqui, não parte de um olhar sobre os detentos por crimes hediondos e sobre sociopatas que tenham se tornado objetos de estudos dos investigadores da mente criminosa. Estendo meu olhar sobre o cidadão comum, que estuda ao nosso lado, mora na casa vizinha, freqüenta, inclusive nossas comunidades eclesiásticas, e, de repente, surge como pedófilo, parricida, estuprador ou torturador. Incrível, como de uma hora para outra, explicações plausibilíssimas surgem de autoridades sobre o comportamento humano. O triste, é que todas as justificativas para esses crimes surgem, geralmente, postumamente, infelizmente, sobre corpos de inocentes.

Acredito que o diabo, maligno, satanás, ou seja lá qual for sua designação, é uma pessoa, tem personalidade própria e tem atuação livre por aí. Mas não vejo que sua ação chegue a esse nível. Há algo inexplicável por trás dessa malignidade latente. Eu entendo, inclusive, que esse tal de maligno, pode muito bem ter redirecionado sua interferência sobre os seres humanos, reduzindo-se a criar “metáforas” de si. Possessar ou agir naquele estilo medieval de opressão, bem conhecido por nós, pentecostais, é pouco frutífero para ele.  Gente que produza, sem nenhum tipo de influência, sussurro ou sopro do mal, atos atrozes, são extremamente mais perigosos.

Pessoas são totalmente más? Existe alguma condição de sermos prevenidos do mal, ou poderíamos mapeá-lo? Crianças-bombas são culpadas pelo que sofrem? E quanto à barbárie que ocorre todos os dias, com atitudes mais próximas da bestialidade, na periferia de Paris, a cidade dos amantes? Bestas e não homens ditatorialmente, sobre o solo riquíssimo em diamantes, em países africanos, deitam corpos de mulheres e crianças mortas pela AIDS e pela guerra, enquanto financiam, com estes mesmos diamantes, suas guerras particulares, comprando armas de traficantes russos. E a possibilidade de mudança? Para os maus, há apenas uma sentença?

Pessoas são totalmente boas? O bem também pode ser roteado? E quanto a essa gente comum, que somente criticamos após fazerem o mal? Existe uma fórmula para tornar-se gente boa? Que critérios poder-se-iam criar para analisar os bons? Há o Supremo Bem? No lado oposto da mesa dos nossos processos de dicotomização da vida, entre certo e errado, no qual sentamos os que consideramos bons, pessoas que constroem suas vidas sobre ações sacrificiais de bondade, estariam enquadradas em um grupo de  “Isentos de classificacão pelo altruísmo?” Haveria algum tipo de trevas em quem brilha tanto?

Eu não acredito em extremos. Não concebo que uma pessoa seja completamente isenta de absolutamente nada. No entanto, acredito que há um suprapropósito. Que existe um parâmetro essencial de existência. Carlos Queiroz, amigo precioso, disse certa vez, que há um paradigma humano, que existe um padrão de Ser Humano, e que, qualquer existência fora de seu caminhar e lógica de vida, seria in, sub, ou desumano. Não tenho nenhuma condição de encontrar respostas finitas para o drama da maldade humana, ou determinar sua origem. Porém acredito no seu fim. Essa é minha esperança. E eu empenho minha vida em minimizar minhas próprias trevas, tentando acender mais minhas luzes, como quem aponta um espelho para a luz que se quer refletir, de forma que essa iluminação do foco maior, se confunda com a luz que eu próprio produza.

Gostaria de poder olhar universalmente para a história da humanidade e dar alguma esperança discursiva, simplória e cabal. Mas não consigo, por mais que tente, olhar para além da pessoa histórica de Jesus de Nazaré. Somente acredito na sua Cruz, não como anuladora do mal, mas como a ferramenta para o desenvolvimento da salvação do humano, de sua cura, restauração. Sei que a palavra salvação tem também essa conotação. Meu anseio, leitor, é que você olhe para suas próprias trevas, as repugne, as enoje. Embora saiba que tenha que conviver com elas, e tente minimizá-las, investindo mais na Luz. Aquela que disse que o era para o mundo. Quanto mais luz, menos trevas, menos morte, mais vida.

Se há metáforas forjadas no mal, queiramos nós, espontaneamente, exalar perfumes de amor, cordialidade e Graça. Quem sabe, assim, haja esperança para os maus.

EDNEY MELO

* Famílias, amo vocês, Luc Ferry, Ed. Objetiva, Filosofia, 144 página.

DEDICO ESSE ARTIGO À CRIANÇA ISABELA E À ADOLESCENTE ELOÁ, MORTAS POR QUEM OS DIZIA AMAR.

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