Desabotôo um pouco mais da minha alma, para continuar a desnudar minha nordestinidade. Dessa vez vim ao Ceará e fui imaginariamente a Assaré. Perto de Crato e Juazeiro, seria seca demais para que saísse dali alguma água fresca, mesmo a água da poesia. Quem encontra contentamento na dor, fartura na sequidão ou o belo no tosco? Mas assim como já brotou água da rocha em outra “Assaré”, esta na Palestina, por que não haveria de nascer candura no rústico e difícil viver do sertão, por que não receber afago, mesmo de mãos tão ásperas de calos?

Há muito, desde as obras Vidas Secas e O Quinze, por exemplo, tende-se a olhar para o Nordeste como exemplo de superação de suas vicissitudes. Frases meio fora do contexto, como “o nordestino é antes de tudo um forte”, traduzem um pensamento universal de que os pobres oprimidos, dignos de um dó nacional, precisam receber um olhar misericordioso dos mais favorecidos. Mas, e se pudéssemos encarar a realidade do nordestino, não como um fato inconteste, que precise ser mudado pelas políticas públicas e projetos sociais? E se entendêssemos que essa realidade simplesmente pode não mudar? Seria possível imaginar que alguém pode decidir não querer mudar o clima, ou aceitar sua cruel circunstância, sem lutar contra Deus, mas desfrutar de uma história a partir de posturas e não de intervenções?

Todos os milagres que leio ter feito Jesus traziam uma reflexão existencial. Assisti pela quarta vez ao filme Ben-Hur. A produção remasterizada, sem cortes, tem mais de 3 horas de exibição. Percebi que o autor da obra que se tornou produção cinematográfica – na minha opinião, a maior de todos os tempos, por causa dos recursos bem inferiores aos de hoje, comparados com os dos anos 50, quando foi produzida – quis fazer um paralelo entre Jesus e Judá Ben-Hur.  Jesus nasceu em uma manjedoura, Judá em uma família aristocrática; ambos foram injustiçados; Jesus levou sua vida pregando a graça, e o amor aos inimigos, Judá cultivou o ódio e queria vingança dos algozes romanos. Até um diálogo entre Ben-Hur e Pôncio Pilatos sugere que ele se tornaria uma persona non grata para o governo romano por causa de suas posições políticas. Claro que o final revela a implantação de valores como o Perdão e a Graça no coração do herói. Mas é  nítida no filme a imagem de que tipo de rei o povo de Israel escolheria para si.

Jesus não queria modificar o statu quo israelense ou promover uma mudança político-bélica. Como viver em um mundo que, provavelmente, não veremos se transformar, pelo menos em nossa geração? Para esclarecer aonde desejo chegar nessa argumentação, vou me voltar para Assaré, terra árida. Imaginar que aquela pequena cidade seja abrigo e escolha para alguém, parece uma improbabilidade. Há uma família, em especial, que ainda mora lá. Composta por mais Silvas. Nessa família nasceu Patativa do Assaré. Um Gênio da Literatura, que, depois de aprender a ler, já com 12 anos, além dos seus cordéis habituais, sonetos e outros textos sofisticados, inspirados na leitura que aprendeu a fazer da obra de Castro Alves, o poeta dos negros. Seria o seu agreste um navio negreiro?

Patativa poderia viajar pelo Brasil, e fora dele– há parte de sua obra na França, onde sua poesia é estudada – mas sempre voltava para Assaré. Sua casa era simples, era conhecido dos contemporâneos e das crianças, os quais não tinham a mínima idéia de sua importância para a Literatura nacional. Tinha sempre uma redinha cheirosa e um lençol dobrado esperando por algum viajante cansado que precisasse de guarida. Devia sair toda madrugada para esticar as costas depois de uma noite de sono que começara cedo, para olhar a paisagem. Um sol soberano que nascia implacável para uma terra da qual brotava galhos e vegetação rasteira, de curta sombra. A fauna, paupérrima, de animais pequenos e magros, heroicamente resistindo, simplesmente sobrevivendo. Este era o cenário de sua inspiração. Era ali que ele encontrava a semente para plantar imagens de tanta beleza e profundidade literária.

O Ser Nordestino carrega uma esperança para além da tragédia diária de cada família diante do clima e da pobreza do agreste. É um sobrevivente. E é essa a lição que deve ser aprendida: vamos continuar respirando. Há flor no mandacaru; há verde, mesmo no período seco na árvore Juazeiro; há beleza no vôo solitário da asa branca; há poesia nos lábios do rude morador de Assaré. Ressignifico a palavra esperança para que ela deixe de indicar um olhar para o vazio que é pintado em imagens do impossível de nossos devaneios. Passa a ser o próprio construir diário em direção ao melhor. Melhor, com novas circunstâncias, que necessariamente não serão superiores as de hoje. Mas diante das quais eu serei alguém diferente.

A esperança, para mim, não é um foco de luz em direção a tempos melhores apenas, mas é uma pequena lanterna que faço focalizar dentro de minha própria bagagem. Espero que as circunstâncias melhorem – seria um hipócrita se não admitisse – mas, principalmente, quero encontrar beleza, ser alguém mais feliz. Creio ser isso o que estava oculto nas frases de Jesus para as pessoas que encontrava: “vá e não peque mais”. “Mude!” Interrompa esse statu sui. Acho que a Esperança de Cristo são se projetava sobre o mar que acalmaria, mas sobre Pedro e os outros que não aprenderam com ele que estava dormindo durante a tempestade.

Se perguntasse para você onde está o foco da sua esperança, o que responderia? Pois bem, quando leio o poema abaixo, mantenho meu coração na imagem que faço do autor, não no poema em si.

A festa da natureza
(Patativa do Assaré)

Chegando o tempo do inverno,
Tudo é amoroso e terno,
Sentindo o Pai Eterno
Sua bondade sem fim.
O nosso sertão amado,
Estrumicado e pelado,
Fica logo transformado
No mais bonito jardim.

Neste quadro de beleza
A gente vê com certeza
Que a musga da natureza
Tem riqueza de incantá.
Do campo até na floresta
As ave se manifesta
Compondo a sagrada orquesta
Desta festa naturá.

Tudo é paz, tudo é carinho,
Na construção de seus ninho,
Canta alegre os passarinho
As mais sonora canção.
E o camponês prazentero
Vai prantá fejão ligero,
Pois é o que vinga premero
Nas terras do meu sertão.

Quantos sertões existenciais! Quanta sequidão de coração! Faço um convite. Vamos continuar esperando. Vamos continuar nos salvando. Vamos continuar melhorando. No tempo da seca e no tempo da chuva.

Não mude mundo nenhum que não mude o seu mundo

EDNEY MELO

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