Votei no Lula, pela primeira vez, em 1989, enquanto estudava na então Escola Técnica Federal do Ceará. Foi um tempo muito especial da minha vida. Fui criança e adolesci durante a ditadura militar e, então, aos 17 anos, estava ajudando a fazer história. Todos ficávamos ávidos pela chegada do intervalo diário, para exibirmos nossas flâmulas, camisetas e adesivos que usávamos como bótons nas batas, nossa farda. Houve até um aluno do Curso de Estradas que simulou sua própria crucificação, afrontosamente, na frente da casa do Diretor da Escola, localizada no perímetrp da própria ETFCe, com a frase “Ensino Público” em vez de INRI, na plaqueta acima da cabeça. Esse tal reacionário chegava de manhã e somente deixava sua “cruz” à noite. Foi libertador para aquele grupo de jovens que tentava acreditar.

Eu era muito tímido para tentar qualquer atitude mais radical. Apenas ideologizava. Pouco tempo depois, minha namorada, hoje minha esposa, entrou para o curso de Ciências Sociais na Universidade Federal do Ceará e eu, para Letras, na Estadual. Para passarmos mais tempo juntos, assistíamos aulas na faculdade um do outro, como ouvintes. Eu acabei por fazer várias cadeiras do Curso dela. Convivendo, então, com esse ambiente dos ”insatisfeitos”. Daqueles que corriam atrás de suas utopias. Muitos desses ferrenhos opositores do sistema, tornaram-se submissos funcionários públicos, que nem greve fazem.

Hoje, amadurecido e amolecido pela vida, fico procurando no baú de minhas memórias juvenis, onde eu comecei a deixar de acreditar. Quando minhas utopias começaram a morrer? Meu impossível próximo presidente de 19 anos atrás, já está no seu segundo mandato, meu candidato a vereador daquela mesma época, agora é Senador. Eu acompanhava os discursos do cara em uma “radiadora”, no tempo emque a gente lutava por meia passagem e acreditava no Partido Comunista. Por que se perdem os sonhos? Será que eles são realmente alcançáveis? Ou descobrimos que o “sistema” corrompeu nossos sonhos e os transformou em decepção?

Depois de tantos anos, também não consigo mais ter uma análise simplória das realizações dos meus antigos heróis. No entanto, vou dar uma olhada por cima do meu ombro para além das estruturas de governo, em direção aos símbolos humanos. Vou tentar isentar os personagens sobre os quais falarei, retirando-os da conjuntura estratégica elaborada para eles ou a partir deles, e vou concentrar o olhar no mito que eles se tornaram, o ideal que se confunde com o idealizaador. Por mais que as instituições sempre acompanhem cada indivíduo, é exatamente o significado do indivíduo o que estabelece as organizações humanas.

Voltando ao assunto Lula. Diferentemente daquele de ar professoral, admirabilíssimo, intelectual de fluente inglês britânico, Fernando Henrique Cardoso, que era recebido pelos outros estadistas, com ouvidos atentos às suas eloqüentes colocações, principalmente sobre economia e sociologia, o ex-metalúrgico tem sido recebido como uma celebridade; é o símbolo vívido de que a democracia pode, algum dia, deixar de ser uma mera utopia grega. Até as crianças de outros países querem tirar fotografia ao seu lado. Meu ideal de adolescente, recém-iniciado na possibilidade de sonhos, estava satisfeita em sua eleição. Não era, para mim, mais um político recebendo uma faixa (a presidencial); era um sujeito parecido com qualquer parente meu, aqui do nordeste brasileiro. É o signo-homem de sobrenome Silva, como eu.

Em um ambiente cultural completamente diferente, está outro signo-homem. Este, carrega uma responsabilidade de proporções mundiais. O recado que o Obama carrega sobre si é superior à sua capacidade de corresponder aos sonhos idealizados pela nação americana, representados por todas as minorias, que outrora jamais teriam um igual na Casa Branca, como os negros, os latinos, ou até mesmo os homossexuais ou os imigrantes asiáticos. Ele é absolutamente consciente disso e sabe muito bem que seu país, de vez em quando, constrói alguns totens que são erguidos, diante de todas as nações, para trazerem esperança para o país inteiro e seja um memorial de sua grandeza, até mesmo na possibilidade de sua própria reinvenção.

Depois de 1929, na Grande Depressão, os jornalistas saíram a caça desses totens pelos quatro cantos dos Estados Unidos. Assim, encontraram James Braddock, um pugilista decadente que ergueu sua família da completa miséria e recomeçou sua carreira e o Seabiscuit, um cavalo pequeno, que foi livre, por pouco, de ser sacrificado, e, com um jóquei cego de um olho e muito grande para cavalgá-lo se tornou um campeão, na mesma época.

Mas esse havaiano, com nome parecido com o do terrorista tem, a meu ver, a redor de si, uma comoção muitíssimo superior. Ele é quase uma reedição da imagem de Martin Luther King, o idealista. “King” – ele não poderia usar esse nome com mais propriedade. Era realmente admirado como um rei de esperança inexpugnável, autor da frase, hoje utilizada banalmente: I have a Dream (eu tenho um Sonho). Sonho que esperava ser construído por ele próprio. Tenho certeza de que  esperava ver, na sua geração, parte de seus ideais radicadamente inicializados. Tornou-se um dos poucos verdadeiros mártires do século XX. Seu significado era maior do que ele.

Eu já não sou ingênuo para acreditar que esses homens: Lula, Obama e Martin, são ou foram o que passaram a significar. Assim como as palavras que criamos deixam de ser simples ferramentas de comunicação oral circunstancial, mudam seus significados, crescentemente ou decrescentemente, dependendo de sua própria utilização, esses homens também têm seus significados alterados com o tempo e de acordo com o julgamento crudelíssimo da mídia e dos intérpretes da história. Ambos, homens e palavras são símbolos daquilo que queremos que eles em nós imprimam. O mesmo acontece até com animais irracionais: um rato pode causar devoção na índia e asco no Brasil. Nossos critérios, quer religiosos, familiares e de inconsciente coletivo são alguns dos recursos que lançamos mão nessa “simbologização”. Mas essa já é uma reflexão para outro momento.

Sob esses signos vivemos e construímos. Às vezes, a morte, como no caso de King ou Gandhi, motivam sonhos e possibilidades. Outras vezes, a perenidade, no caso do cubano Fodel Castro, pode torná-los gastos e obsoletos. Convido o leitor a voltar a acreditar nos significados altaneiros. Num mundo que espera por uma nova Grande Depressão, dessa vez, não mais à sombra de uma Guerra por controle mundial, mas sob um belicismo econômico, tão destrutivo quanto o mais poderoso míssil nuclear, é preciso voltar ao idealismo. Que tal um idealismo que nos faça caminhar um passo de cada vez em direção ao maior do que nós? Quando começamos a andar, no início de nossa vida, cada passo era um quilômetro em direção aos braços de nossos pais. Sem sonhos, sem passos. Sem passos, sem vida.

A idéia de morte está imbutida em cada “não quero mais tentar”, “não quero recomeçar”, ou “nunca mais”  que pronunciamos. A diferença entre triunfalismo e idealismo reside nas mentiras que o triunfalista precisa criar para manter seus falsos projetos de pé. O idealista não tenta se enganar, mas resiste nas suas fraquezas. Ideal não precisa ser nacional. É possível ter pequenos focos de esperança, lado a lado com os grandes propósitos existenciais. Eu ousaria usar a frase de Luther King I have a Dream com uma partícula inglesa significante: would, que formaria I would have a Dream. Mesmo com tantas condições atenuantes, até em âmbito mundial,  Eu deveria ter um sonho. Deveríamos ser capazes de olhar para acima de nós. Assim, nossos pequenos passos na jornada de nossas vidas podem construir significados, os quais se confundirão conosco próprios, mesmo depois que partirmos.

Nossos ideais serão a nossa vida e serão o significado de nós.

EDNEY MELO

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