O que aconteceria se tudo fosse diferente? Tudo mesmo. Se a história do nosso país fosse outra, falássemos outro idioma ou tivéssemos outros traços físicos. Quem estuda história sabe que entre os anos de 1621 e 1645 quase fomos dominados pelos holandeses (se eles houvessem conseguido vencer os portugueses que precisaram dos espanhóis para expulsá-los).

O que aconteceria se tivéssemos a chance de fazer, ou de deixar de fazer o que nos levou a ser quem somos até aqui? Vamos pensar em uma dimensão mais abrangente primeiro. Por exemplo, como seria o mundo se os Gregos nunca tivessem existido? Li um artigo que trazia esse questionamento e a opinião de historiadores e professores universitários. O mundo seria literalmente outro. Os Gregos despertaram um incômodo intelectual na humanidade. Eles nos ensinaram a não aceitar respostas demasiadamente simples. Foram eles que trouxeram a necessidade de encontrar caminhos que nos façam nos entender melhor como humanos e evoluir socialmente. Se eles nunca houvessem surgido, o mundo seria místico em extremo. As explicações para todas as coisas teriam sua base apenas em conceitos primitivos da religião. Provavelmente nem teríamos ido à lua ou até a forma como os países são governados não seria a mesma por serem os gregos os criadores do conceito de democracia.

Todos nós alimentamos lembranças. Fatos que somente são marcantes para nós. Historietas que não nos tornarão grandes transformadores da humanidade ou líderes famosíssimos. É apenas a nossa história. Inclusive tem gente ficando muito rica por estudar a historia dos grandes transformadores do mundo a partir de seus traços de personalidades e estripulias familiares. Eu não sou famoso, mas me modifico à medida que experimento a vida. Meus conceitos sobre o mundo são construídos pela minha história. Cada pequeno fato vai marcando minha vida. O primeiro dia na escola, a primeira tentativa de namoro, o primeiro emprego, o primeiro filho, o primeiro neto, e por aí vai… Esses marcos vão nos moldando.  Já há gente que vence seus limites incrivelmente após terem uma história de sucessivas tragédias. É o caso do ex-metalúrgico Presidente Luis da Silva, da ex-lavadeira Ministra Marina Silva e da ex-favelada Ministra Benedita da Silva. Um viva para os Silva!

A pergunta que não quer calar hoje é: O que aconteceria se…? Há algum tempo assisti a um filme cujo enredo principal era a estória de um casal de noivos que se separava no aeroporto. No momento da saída havia a proposta do rapaz voltar e os dois continuarem suas vidas. Ele não volta e sua vida toma um rumo inusitado. Em um momento do filme, algo acontece (eu não vou contar o filme todo) e ele acorda como se tivesse tomado a outra decisão. De um playboy inveterado, desperta um homem de família – título do filme. A situação econômica, as amizades, a empresa onde trabalha, tudo é alterado e a sua vida toma um rumo completamente diferente do início da trama.

Muitas vezes penamos ao ignorar nosso passado por dizermos que ele não faz bem a nós. Acredito que podemos até ser curados de fatos dolorosos de nossa história, mas jamais seríamos quem somos sem o nosso passado. Não posso mudá-lo, mas tenho sempre a possibilidade de escolher melhor que da última vez. Tenho a chance. É interessante essa palavra, um desafio para a etimologia. Chance é chance em português, espanhol, inglês, somente a pronúncia é alterada. Sempre temos uma nova oportunidade de melhorar nossa última marca, de alterar para melhor nossos resultados. Não perca a próxima chance de abraçar. Quando alguém passar por você novamente pedindo ajuda, você tem a chance de responder agora: “pode contar comigo”.

Escolha melhor. Talvez jamais saibamos como seria um brasileiro falando holandês, mas podemos ser melhores descendentes dos portugueses, índios, italianos, japoneses, alemães… É a partir dessa mistura que somos nós que temos a sempre renovada chance de ser uma boa oportunidade para os que nos cercam.

Chorar o passado é inútil. O leite derramado não vai voltar para o frasco; mas pode ainda alimentar o gato da casa. Nenhuma tragédia é realmente definitiva. Sempre temos a chance de fazer algo além do aparente fim. Explico isso lembrando aquele mencionadíssimo ditado americano: se a vida lhe der um limão, faça uma limonada. Só não podemos nos acomodar ao limão. Limão sozinho é azedo. Preciso de água e açúcar. Vou diluir as conseqüências da tragédia na água da palavra e na doçura do Espírito Santo.

Viver não dói

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?

O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.
Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos,
por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.

Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças qu e não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade..

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.

Carlos Drummond de Andrade

Olhe para frente, olhe para frente, olhe para frente… Até que as lembranças das más escolhas diminuam e as cores do futuro se tornem mais vivas.

EDNEY MELO

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