Quem não quereria simplificar a sua própria vida? Quem não gostaria de fazê-la caber em um soneto ou em um documentário de trinta minutos? Entro em um dilema inominável: e se a riqueza da poesia contiver uma palavra apenas que carregue o significado de imagens plurais, florais, para uma existência inteira? E se a figura de um olhar construísse descrições inacabáveis até para a habilidade da pena de José de Alencar? Se eu dissesse que a vida é uma fonte, ou uma estrada ou uma pluma, como aquela que voeja na abertura e na conclusão do filme Forrest Gump? Você que lê pode pensar o que quiser. Pode aceitar, recusar, reescrever, repaginar o que discorro. Eu não tenho controle sobre sua atenção, interpretação ou velocidade de leitura. Basta-me escrever o que quero, o que penso, unicamente para os seus olhos.

 

Assim, divagando, gostaria de lhe apresentar um certo homem, com quem minhas melhores horas são passadas à mesa, com uma xícara de um preto café, “medroso”, porque sempre anda acompanhado de uma tapioca, um pedaço de bolo, como descreve meu doce pintor de sons e amigo Allison Ambrósio. Ora falamos de futilidades, ora jogamos uma boa partida de xadrez. Nossas melhores e mais marcantes conversas, no entanto, são regadas por nossas lágrimas. Quase impreterivelmente nos encontramos para chorar. Nas linhas seguintes você vai entender porquê.

 

Quase esqueci de mencionar seu nome: Henrique. Ele prefere ser chamado pelo equivalente português do seu nome polonês, Henryk. O seu sobrenome é alemão, Kowalski. Era criança durante a segunda guerra mundial e foi adotado por um bom alemão que amou a família polonesa e se arriscou, dando, inclusive nomes germânicos para todos, Henrik se tornou Heinrich, e assumindo seus irmãos e a sua mãe, vítima de violência por um soldado, e teve toda a família, inclusive o marido polonês, morta durante a invasão da Polônia. Ele lembra, sempre que estamos juntos, que sua avó insistiu para colocá-lo, juntamente com sua irmã menor, em um comboio de carroças que seguia para o interior do país. Sua mãe impediu, retirando-os de dentro de uma das carroças e os levando para a Alemanha. O comboio foi bombardeado. Ninguém sobreviveu.

 

Quanta dor ele sofreu e testemunhou naqueles anos negros da história mundial! O que aquela criança viu seria condenado por qualquer educador ou psicólogo que trabalhe com infantes. Como nossas crianças escravas nos canaviais, ou que transitam pelas favelas sob fogo cruzado, entre corpos e feridos, levando em suas mãos, drogas e dinheiro sujo, Henrique, resilientemente, tem que sobreviver. Parece não haver escolha diante de determinadas avassaladoras circunstâncias. ninguém perguntou a opinião dele sobre a guerra, ou sequer o poderia proteger para uma posterior reflexão. A crueldade dos fatos suplantaram sua infância, roubando-lhe a possibilidade de ser criança. Mas, repito, ele insistiu em sobreviver.

 

Por isso a vida do Henrique melhora a minha. Sempre que estou achando que minha forma de ver o mundo está se tornando suficiente, quando começo a me sentir bem demais com a minha própria história, é com ele que vou passar um pouco de tempo. Ouvir a respeito do holocausto ou assistir a um documentário sobre a segunda guerra pode ser uma experiência forte. Mas nada se compara a estar com alguém como este amável polonês. As teorias a respeito da maldade humana e suas conseqüências sobre gerações inteiras, bem como a teimosa capacidade humana de sobrevivência e de auto-reinvenção, isso eu vejo no olhar de Henrique, o qual, de vez em quando, se perde, e me dá a impressão de que diante de mim está aquela mesma criança, agachada, atrás de um arbusto, esperando os soldados alemães terminarem de saquear o suprimento, que acabara de cair de um avião americano, para depois de algumas horas, levar para sua família, escondida em um sótão qualquer, a aguardá=lo, faminta. Esse garoto de seis anos, corajoso, ainda está vivo nesse intrigante homem. E ele me ensina sobre valores tão profundos, aos quais minha vida inteira, provavelmente, não consegirá conter.

 

Não sei com o que mais aprendo: se com as histórias que ouço, ou com o simples fato de ter o próprio Henrique perto de mim. Sua simples presença naquela mesa já é um fato histórico. Eu o conheci por causa de sua esposa, membro de uma igreja que pastoreei. Ele veio parar no Nordeste brasileiro e construiu uma família polifônica: ele, polonês de sobrenome alemão, à esposa, cearense, Maria, deu o sobrenome que recebeu e aos filhos antenomes germânicos e brasileiros. Eu, pessoalmente, não posso reduzir a vida, Deus, os homens e todas as possibilidades relacionais entre estes, de forma ampla, vaga, conceitual. Estou tentando respeitar mais os homens e as mulheres, ao meu redor. Inclusive, aqueles que insistem em estar perto de mim, apesar de quem sou, em minha comidade, ou na rua, que pensam diferente de mim, inclusive os que julgo pensarem “menor” do que eu. Acho que a polifonia fala mais e melhor do que o sonido solitário de um solo. Eu aprendo muito com todos. Com a senhorinha religiosa do banco da minha igreja, que talvez termine seus dias e não mude sua visão da vida e com o jovem, ávido por ser ouvido, cheio de ânimo por transformação. Aprendo com todos.

 

Henrique me enriquece, querido leitor, mais do que qualquer livro que já tenha lido. Estar perto dele já basta para minha alma ir a porões escuros que trazem dor, nostalgia e melancolia. Mas, ao levantar a cabeça, de lá subindo as escadas para olhar o sol, mesmo que através de uma janela de uma velha casa européia coberta de neve, realmente, não consigo ser o mesmo. Obviamente, escreverei mais sobre este meu amigo, cuja vida é tema inesgotável, e cujo nome é uma palavra de mil imagens.

 

 

EDNEY MELO

 

 

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