Como nasce uma palavra? A primeira resposta que se pode imaginar é: alguém pensa em uma boa idéia abstrata e a associa a uma porção concreta. Na verdade, um signo linguístico, como os teóricos chamam aquele símbolo escrito, nasce da fala. A fala é o ato da comunicação oral. Comunicação, porque envolve uma comunidade, para facilitar, eu diria, de duas pessoas. Essas duas pessoas estão uma em frente à outra e precisam mutuamente, que o outro entenda alguma coisa que está dentro de suas mentes. Digamos que um dos dois esteja querendo que o outro saiba que este está com fome. Essa necessidade, vai gerar um consenso sobre algum tipo de forma simbólica para expressar “comida”. Depois que isso é estabelecido, esses dois passam a multiplicar, e, por fim, temos uma palavra. E eu estou mencionando, hipoteticamente, pessoas que podem ouvir e ver. Se forem surdos ou cegos, seria uma outra história.

Quando passamos ao trabalho de escrita, exploramos um universo ainda mais denso. Esse processo todo é “experiencial”. Toda a expressão normatizada humana, em qualquer idioma, surge de uma única necessidade: sermos compreendidos pelo outro. A grande problemática que a filologia, que usa ferramentas das ciências sociais para estabelecer a etimologia de uma palavra de origem antiga, reside na dificuldade de alcançar a emoção da sociedade, que utilizava tal palavra, tinha, à época que esta era usada, bem como a influência de todas as nuances circunstanciais em todo esse processo.

E quanto às idéias, as abstrações humanas sem correspondência direta a algum fato, ou objeto tangível? E quanto ao conhecimento? E se a questão não for expor o que há na alma, na mente, mas receber, aprender, adquirir um assentimento, uma verdade, uma proposta, um conceito que mude, que transforme a relação consigo, com o meio, com o presente, com o passado, com o futuro? Mais uma vez, é com o outro a história. Precisa-se de novo dele. Mesmo que esse outro não tenha rosto, não seja uma pessoa, seja um externo inanimado. De qualquer e toda forma, o aprendizado vai envolver, alguém de carne osso na outra ponta da “mesa de estudo”.

Reduzindo nosso objeto de reflexão para o Brasil, encontramos uma identidade de processo e instituição de ensino que é, hoje, exatamente o mesmo desde a época dos Jesuítas.

Meu professor de Fonética e Fonologia da faculdade, o pesquisador José Lemos Monteiro**, defendia, já no início dos anos 90, que o melhor método de ensino que os estudantes não-profissionais (aqueles que trabalham de 8 a 12 horas por dia antes de entrar na sala de aula), seria um semelhante ao que acontece no Mestrado, em que os professores são orientadores e não apenas depositores de informações. Ele defendia que todo curso universitário de ciências humanas deveria acontecer na biblioteca. O aluno teria sua própria experiência com as teorias, “ouvindo” diretamente dos autores e teóricos e depois compartilhando com o professor-orientador. Obviamente, a indústria do sistema de créditos das universidades não permitiria isso tão cedo. Lemos deixa claro que o professor aprende com o aluno enquanto os dois “experienciam”, degustam, em uma produção de conteúdos mútua.

Re-lendo A República, de Platão, uma conversa entre Sócrates e Glauco sobre a aquisição do conhecimento resulta na narração de O Mito da Caverna, que é a estória de um sujeito, que, com seus companheiros, são prisioneiros, acorrentados desde a infância com o rosto virado para a parede do fundo de uma caverna, na qual eram projetadas, por causa de uma fogueira do lado de fora, no alto de uma colina, e do outro lado de um muro, a sombra de todos os transeuntes daquele trecho, o que era a única relação dos acorrentados com o mundo exterior. Este acorrentado é liberto e tem “experiencia” o conhecimento, tendo seu rosto virado para fora da caverna, ele é recebido pelo conhecimento. A parábola é, segundo o próprio texto, sobre “o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância”***. Na minha intuição, a nossa relação com a verdade tem exatamente em “relação” a principal fonte de significados.

Somos tão viscerais, que amamos ao que queremos ter. Isso envolve todo o tipo de aquisição. Aos formadores de opinião (professores, palestrantes, gerentes.., et caetera – lit e os outros), e, no meu caso, pastores, gostaria de sugerir, se me permitem, que nossa relação com nossos alunos, membros, clientes, seja mais verdadeira do que a idéia a ser exposta. Eu entendo que teologia, (isto, no meu caso), é refém da experiencia, inclusive, minha com o meu ouvinte. Ele, logo que ouvir de mim o que quer que seja, já vai evoluir em algo que é verdadeiro, do que falei, para ele próprio. Então, ele repassa para mim e eu cresço com isso.

Quando re-leio o que Jesus disse “conhecereis a verdade” e procuro um léxico confiável que me ajude com a etimologia grega, encontro a mesma palavra para “coabitar”. Conhecer a verdade, seria “experienciá-la”. Conhecer, inclusive, a Verdade orgânica, não sistemática, sistêmica, um homem, nazareno, judeu, Deus. Preciso ser mais vulnerável na minha relação com o conhecimento, com o outro, e, principalmente, com o Senhor de mim.

Uma proposta de um líder vulnerável, não é muito aceita porque nossa “episcoplaidade” não admite erros. E a relação mais sincera, não é com o meu discurso, e, sim, com a tradução desse discurso em minha prática diária.

Concluiria com uma proposta: que tal convidarmos um morador de rua ou uma favelada para um de nossos debates sobre ação social? Ou mais: que tal fazermos um debate sobre o pobre, em uma favela, com uma criança órfã no colo, debaixo de um viaduto, onde pessoas moram em casebres com paredes de papelão, sentados em uma pedra, tomando café feito em uma lata de leite, ou enquanto ajudamos a algum analfabeto a ler? Adquiriremos o conhecimento que, em uma sala da aula, seria difícil experimentar. Além de cumprirmos o Ide de um certo palestino, que, até em seu discurso, ressurreto, quis ficar perto de nós, dizendo: Eu vou estar com vocês até o fim. Criar novas palavras seria necessário? Precisamos reforçar o significado de algumas que já existem. Voltar a acreditar naquilo em que aqueles que as normatizaram acreditavam em relação a elas. Algumas sugestões: Jesus, outro e solidariedade.

E experienciareis a Verdade e isso, somente isso, vos libertará.

EDNEY MELO

P.S. Leia a biblia. Ela é aformada por biografias. Estórias escritas de vidas verdadeiras.

**Paraense radicado em Fortaleza, José Lemos Monteiro é doutor em Letras pela UFRJ e tem dedicado sua vida à pesquisa e ensino da língua portuguesa, como professor titular da UNIFOR e professor Adjunto da UFC e UECE. Sua produção intelectual é bastante ampla e diversificada, somando treze livros e cerca de setenta estudos publicados em revistas especializadas. Abrange obras de ficção cientítica e literária, algumas premiadas, bem como ensaios de natureza lingüístic, estilística e educacional.

*** A REPÚBLICA, Platão, pag 164 Tradução de Enrico Corvisieri, Editora Nova Cultural Ltda, 1997

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