Um tema tem sido exaustivamente trabalhado recentemente e provocado um debate muito interessante nas rodas de amigos e em alguns programas sérios de discussão na televisão e no radio, que é a batalha titânica entre duas corporações grandíssimas: o Grupo Roberto Marinho e a Igreja Universal. Os lados dessa guerra podem se considerar dois dos mais bem-sucedidos empreendimentos de todos os tempos no Brasil. Tudo começou com uma reportagem no Jornal Nacional, da Rede Globo, que denunciava lavagem de dinheiro pela Igreja e empresas ligadas ao Edir Macedo. Em contrapartida, a Rede Record, de Macedo, passou a exibir denúncias sobre extorsões e outras irregularidades, já até expostas em um documentário da BBC, “Além do Cidadão Kane”. Isso tudo, num momento em que a Record, da Universal mais cresce no consciente coletivo e, claro, em audiência e arrecadação. Especialistas em mídia, já dizem que isso já é um prejuízo para quem ganha com televisão porque haverá o acentuamento da migração maciça em direção a outros meios de comunicação, principalmente a eletrônica, os grandes portais de notícias e entretenimento, como o Terra, o UOL e o Youtube, agradecem.

Por outro lado, a Igreja Universal está encarando essa série de acontecimentos como uma Guerra santa. Deus está sendo afrontado pelo diabo. Uma empresa de televisão comprada por mercadejadores da fé, que, segundo a revista Veja, injetam mais de 30 milhões de reais por mês, através da compra de horários, para apresentação de cultos de exorcismo e debates de falso cunho existencial, tem uma programação sem nenhum limite ético, com novelas que, apenas por audiência, promovem todo tipo de torpeza moral.

O grave, para mim, não é a guerra em si. Ela é explicada em uma selva milionária de interesses pela alma de um telespectador. O injustificável são os argumentos de uma empresa religiosa (quis escrever empresa e não igreja mesmo). A nação pode comparar todos os evangélicos e igrejas sérias a essa corja de falsos pastores. Minha maior tristeza é que esses bispos não estão sozinhos. Cada vez aumenta mais o número de vagões desse trem da sordidez religiosa, cheios de apóstolos, até. A lógica de Max Weber, no seu “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, é invertida. Ali  encontramos  o conceito de que a forma com que o movimento protestante encarava o trabalho fez surgir o modelo de desenvolvimento econômico até de hoje. Nos movimentos  encabeçados por líderes como os da Universal, todavia, o trabalho não é incentivado. Apenas o encontro fácil de benesses através de rituais. E para os líderes, o fim está no próprio lucro adquirido na arrecadação por conta desses rituais na igreja, que, depois serve como capital inicial para construção de impérios corporativos.

Proponho uma outra lógica, que adotei como minha, apesar de não a ter iniciado. Deus não está nesse “negócio”. Jesus Cristo, no projeto que estabeleceu, nunca se rendeu a qualquer cortejo de poder. Todas as vezes que tentaram forçá-lo a assumir poder político, em qualquer esfera, ele se distanciou. Jesus até intentou uma certa anonimidade, quando pedia aos que curava a ficarem calados. Para ele, o mais importante era a transformação da historia individual dos seus seguidores. Falava com cada um, dizendo o nome de cada um, embora a multidão, muitas vezes, o seguisse, pelo que ele fazia extraordinariamente, por isso querendo um libertador político. Certa vez, saíram em abandono, após o fatídico discurso de joão capítulo 6, e ele perguntando se queriam os poucos que ficaram sair também. Preferiu continuar investindo, porém, por causa da frase do mais problemático dos seus discípulos. Olhando para o mas difícil, quis manter o projeto da Cruz de pé.

O povo brasileiro tem deixado sua esperança vagar de mão em mão desde a colonização. A “catequização genocida” dos indígenas, a libertação de escravos que gerara, à época, populações inteiras de mendigos, a proclamação de uma república débil, o golpe militar, a saída desengonçada desse regime que ainda não nos permitiu a criação de uma personalidade nacional realmente íntegra e soberana, tudo isso já seria demais. Agora, surge essa guerra pela posse do quarto poder: a midia, que apesar de fragmentada, por causa da internet, ainda está nas mãos dos canais de televisão. Mesmo com uma empresa gerida por religiosos em um canto desse ringue, imagino que Jesus sequer esteja no ginásio. A necessidade de esperança é generalizada em todos os cantos desse país, dos ambientes mais abastados aos mais pobres; dos mais fortes aos mais frágeis. Como aquela multidão que vagava como ovelhas sem pastor, vista por Jesus, essas multidões brasileiras de hoje, esperam um motivo para ter esperança, mas se contentam com o ópio.

A reposta para a pergunta sobre de que lado ficar tem somente uma resposta: N.D.A. Nem o deus defendido pela Universal é o que conheço, nem o diabo, rótulo para a Rede Globo, são opções válidas para qualquer um que queira desfrutar de uma vida coerente com o Caminho do Nazareno. O estilo de vida iniciado por Jesus não passa por nenhuma das propostas encabeçadas pela Rede Globo ou pela Rede Record. As crianças continuam morrendo no Nordeste, a corrupção impera no Senado e todos continuam olhando para a tela da televisão. Vamos empunhar uma proposta de vida e pregação na contra-mão dessas alternativas. O projeto de Jesus é outro. E por mais que escrevamos e leiamos a respeito dele, é um plano de vôo ainda navegado por poucos.

EDNEY MELO

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