Eu me lembro de ter lido na revista Veja, sei lá há quanto tempo, um prognóstico sobre a telefonia nacional. Era o auge da telefonia celular pré-paga. Diziam que uma grande crise do mercado dos celulares estava próxima, porque não tinha mais para onde crescer. Re-afirmada seria a telefonia fixa. O que diria alguém que estivesse em coma, daquela época até agora, e visse um orelhão com a logomarca da OI em alguma capital brasileira? Não entenderia nada.

E a nanotecnologia? Quem assistiu ao filme de Chaplin, Tempos Modernos, deve ter uma idéia do que o consciente coletivo formador de opinião imaginava reservar o futuro. Esperava-se um futuro em que as máquinas fossem cada vez maiores. Acreditavam que quanto mais tecnologia, maiores as máquinas. Quando se vê, hoje, máquinas do tamanho de grãos de arroz, qual o conclusão? Poderia evoluir nessa lógica em direção a tantas outras construções frustradas: Corrida Espacial, Estados Comunistas, Terceira Guerra Mundial, o Milagre Brasileiro, tudo historicamente sendo julgado diferentemente das previsões. A Futurologia é uma ciência inexata. Por isso dão-se reinos por um bom profissional dessa área. A História é uma senhora irônica e imprevisível, não poucas vezes, incoerente.

Temos, no Brasil, uma doença sócio-cultural crônica: miopia histórica. Não gostamos de olhar por cima do ombro. Uma leve olhada para trás nos pouparia de erros gravíssimos: desde a forma como elegemos nossos políticos, até a forma como escolhemos o cônjuge. A falta de consciência de nossa trajetória nos leva a andar em círculos. Talvez, algo como isso estivesse no coração de Deus quando pedira para o povo de Israel considerar os seus caminhos.

Quando encerramos uma etapa cronológica, como um ano ou uma década, enchemo-nos de expectativas. Abrimos agendas, escrevemos propósitos e metas, mas nem sempre temos o cuidado de folhear as agendas dos anos anteriores. Acho que isso acontece pelo nosso medo de encarar nossos próprios fracassos. Por outro lado, como poderemos melhorar se estivermos tristes com nossos resultados existenciais? É exatamente na coragem de nos reconciliar com nosso passado, onde mora a melhor possibilidade de construção da esperança. Somos o que fomos e seremos o que somos. Olhar para meus planos de ontem pode melhorar meu presente para que eu deixe de cometer os mesmos erros e melhore realmente.

Para você, querido leitor, não tenho receita. Mas eu, sozinho, não quero olhar para o passado. Preciso de uma companhia que me ajude a olhar com misericórdia para mim mesmo. Não quero me cobrar mais do que possa pagar. Quem entende de perdão vai me acompanhar nesse processo de desenvolver retro-expectativas. Andar com Deus é tatear no escuro, é dançar uma música de sons anímicos, é brincar em um jardim invisível, é jornada rumo ao próprio âmago.

E o presente? Se o passado não é absoluto e precisa ser re-significado, um amanhã colorido pode depender da restauração das cores do ontem.

Feliz ano novo!

EDNEY MELO

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