Do universo das pessoas que convivem comigo, cerca de meia Via-Láctea gosta de jogar xadrez. Inclusive, acho que até o título desse texto vai espantar dois terços, pelo menos, dos leitores. “Jogar xadrez deve ser deveras sacal” – quem não joga, quase sempre, pensa. Eu compreendo esse pensamento. Para não ter que jogar sozinho, já tive que ensinar uma quantidade considerável de amigos. Com o último, por exemplo, ainda não terminei a partida que comecei uns 3 meses antes de escrever esta reflexão. Desisti de esperar ele e re-aparelhei as peças no tabuleiro. Não [e sobre os que não gostam de xadrez, mesmo sem conhecer. Como a minha mulher que, quando viu a quantidade de movimentos específicos para cada peça, abandonou a partida no início e nunca mais quis chegar perto de um tabuleiro de xadrez – isso há pouco mais de 3 anos. O que desejo, realmente, é escrever sobre um tipo de pessoa que não gosta de tomar as próprias rédeas de sua vida.

Para mim, a peculiaridade do xadrez está no leque de possibilidades quase infinitas que ele permite. Ele possui categorias de peças cujas características, tão bem elaboradas, sugerem a multiformidade contingencial à qual somos sujeitos todos os dias em nossos processos decisórios. Há peças extremamente limitadas, como os peões, e outras extremamente poderosas, como a torre, ou a temida rainha. Entretanto, o objetivo do jogo é tão somente ameaçar definitivamente, o rei, que tem movimentos limitados, e é, exatamente por que a partida se concentra nele, o componente mais importante. Quando comecei a jogar, ingenuamente, queria proteger a rainha. Porque achava que é preciso preservar o que se tem de mais forte. Ledo engano. Nossos pontos fortes não são aquilo que deve ser preservado. Nossos melhores anos de coragem e aparente invencibilidade passam como as estações do ano. Guardar dinheiro para o futuro ou manter nossa imagem de “Donos do mundo” pode ser um castelo destruído com um movimento de um frágil peão, ou de um cavalo, essa última peça se movimenta em “L”, surpreendendo como uma enchente em pleno verão.

O que é mais frágil é o mais importante. O rei só se movimenta uma casa, mesmo que em qualquer direção, apenas uma casa. Ele é, geralmente, tão somente ameaçado. Todas as peças do jogador adversário se concentram em sua morte (xeque-mate significa “rei morto”). A sua importância, ao meu ver, é semelhante à importância que devemos dar ao abraço apertado e crucial em um momento difícil vivido por um filho ou à observação da mudança de comportamento que pode significar o fim de um longo casamento.

Quando eu jogo uma partida de xadrez, penso nela, como uma metáfora da vida. Eu recebo, quando nasço, ferramentas imersas em contingências que eu preciso administrar a partir das decisões – a maioria delas irrevogáveis, vou compondo minha trajetória de conquistas. E nessas construções o mais frágil, o mais vulnerável, é o mais relevante.

Não acho que o realmente importante é como a vida começa. Como desenvolvemos nossos passos em reação ao que a vida nos impõe é o crucial. Quando eu estou em uma partida de xadrez, procuro guardar o meu rei, como preciso cuidar do meu coração. Meu âmago, meus valores mais íntimos, deles procedem as fontes de vida. Perder o rei, seu ocaso, pode significar perder a alma. Para mim é o que Jesus quis dizer sobre perder a alma apesar das conquistas.

Não acho que o leitor vai querer aprender a jogar xadrez. Apenas pretendo pedir que avalie suas decisões com mais critério, que perceba melhor o que realmente é importante na construção de suas lembranças. Em uma partida de xadrez, ganha quem erra menos, não necessariamente o melhor. Viver não deveria ser uma existencial contagem de resultados. Deveria ser a conquista da liberdade de desfrutar de um coração livre para, simplesmente, ir em frente. As conquistas são a esperança de melhorar as consequencias das decisões diárias e quase infinitas. Afinal, diferentemente do tabuleiro, na vida, só jogamos uma partida.

“Filho meu guarda o teu coração”

EDNEY MELO

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