Graça Machel é esposa de Nelson Mandela. Depois de assistir a uma entrevista sua na Globo News, interessei-me por conhecer mais do seu trabalho. Fiquei admiradíssimo com sua trajetória e com a sua visão sobre o seu relacionamento com um Homem-Mito e do Continente Africano. Machel chegou de Lisboa, bacharel em Filologia Alemã, como professora, mas lutou pela Frente de Libertação de Moçambique, tornou-se Ministra da Educação no primeiro governo tido como legítimo daquele país, casou-se com o Presidente Samora Machel, morto em acidente de avião em 1986, e casou-se com Mandela em 1998. É uma mulher de extraordinária força de vontade e cujos ideais, ainda hoje são para além de sua própria biografia.

A sua visão a respeito de Mandela, também me impressiona. Ela tem uma relação de completa independência biográfica. Ela, inclusive, se irritou com o jornalista quando este abordou esse assunto. Respondeu que ambos são maduros e as paixões que movem os jovens já não são o que mantem seu casamento. Constrangido, o entrevistador, rapidamente, mudou de assunto. Ela parece não querer estar à sombra, vivendo sob a imagem de Mandela. Pelo contrário, a impressão que tenho é de que seu orgulho está com o seu passado de luta pela libertação do seu país de origem.

O que realmente conquistou a minha atenção durante a entrevista e trouxe uma profunda re-definição de determinados pontos de análises meus sobre meu próprio grupo de relações, os evangélicos, foi a sua abordagem a respeito do divisão política do continente africano, o que, para ela, é o grande fator de falta de unidade, visão distorcida do mundo sobre a África, e, da grande dificuldade de governância daqueles países.

Deu-se-me um estalo ao perceber o paralelo quase exato entre a realidade africana e a realidade evangélica brasileira. A África é plural como o evangelicalismo brasileiro. A sua divisão política é explorada pelos estudiosos, mas o que existe, realmente, são etnias com valores, religião, visão de si e do mundo absolutamente únicos. Mesmo que o limite da fronteira exista, até a identidade linguistica desses grupos, suplanta a língua do país em que parte do grupo esteja instalada. Os Macuas, por exemplo, se estendem por quatro países. Algo parecido ocorre em nossos arraiais evangélicos. A força denominacional não identifica mais tão fortemente, sequer os seus membros. Em nossas igrejas, temos crentes com os mais diversos tipos de visão doutrinária e de costumes, transitando pelas mais diversas denominações do país. Temos membros presbiterianos que oram em línguas e pentecostais que não o fazem, e, até as questionam. Como se fossem tipos específicos de “etnias religiosas” que assistem nossos cultos, ministram e servem em nossas igrejas, e, que se encaixam em quase qualquer denominação.

Assim como é necessário para o continente africano, nós precisamos, urgentemente, mudar o nosso olhas sobre a igreja evangélica no Brasil. Entendê-la sem condená-la. Encontrando-nos nela, procuremos uma identificação mais coerente. Nós, pastores e líderes, precisamos ser menos ávidos pela força institucional e começar a perceber do quê, realmente, têm sido formadas as nossas comunidades. Há novos leões, novos areópagos e novos perseguidores da igreja, ao nosso redor. Um debate recente no Senado brasileiro, sobre a questão da exposições de erros de escrita, em livro didático, tentando trocar a noção de “errado” para “inadequado”, está produzindo a necessidade de revisão, que extrapola o ambiente do ensino do português e chega à ética, aos valores familiares e a discussões de gênero. A conclusão dos próprios estudiosos, durante o debate no Senado, foi de que é necessário diferenciar o certo do errado. Cada grupo, segundo eles, precisa saber, primeiro noções claras do que seguirem, normas e diretrizes, antes de terem abertura de questioná-las.

A igreja de Jesus tem a obrigação de não se permitir entrar na “dança da relativação”. Deus ẽ absoluto. Precisamos expor nossos valores e amor de forma clara. Não defendo o fortalecimento institucional. Não acredito que seja possível, cada membro de cada igreja, pensar o mesmo. Isso seria reduzir a criação de Deus a robôs. Defendo o pastoreio em direção à Cruz, à ressurreição, à graça, ao novo nascimento, ao amor primeiro a Deus, ao consolo do Espírito Santo, à vida eterna. Esses valores não são denominacionais. São o princípio da fé estabelecida pelo Nazareno para a formação da igreja. Há muitos perseguidores da igreja. Pena que os percebo mais próximos do que deveriam estar. Esses novos perseguidores, extraem a fé, destroem a simplicidade e tentam minar a Graça. Porém, como os primeiros discípulos, levemos às últimas consequencias nosso compromisso. Os novos leões que tentam devorar a igreja, são invisíveis. Nós os vencemos servindo ao Deus Invisível, Imortal e imutável.

Machel tenta reformular o olhar ocidental sobre a África para haver cura. Ela é menos conhecida do que Mandela. Seu amor ao seu povo, porém, reconstruiu a face do seu país. Não precisamos olhar em direção aos grandes e conhecidos, esperando que deles haja um movimento para mudarmos a igreja. Na reforma de Lutero, o Latim foi trocado pelo Alemão comum, na leitura da Bíblia. A Palavra é para todos, Jesus é para todos o Espírito é para todos. Acredito que é a partir da igreja que haverá transforação. Não tenho medo de um país evangélico. Tenho medo de um país sem Jesus.

Vamos, pastores, pastoras, líderes! Voltemos para o que motivou a reforma. A necessidade de que todos chegassem ao conhecimento da verdade e a igreja parasse de ser vendida. Não importa a sua denominação.

Eu acredito na igreja, eu acredito no Rei e no seu Reino sem fim

PASTOR EDNEY MELO

Comunidade de Cristo Maranatha  

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