Tenho amigo piloto, pára-quedista, médico, bombeiro… Gente que lida com o risco em diversas dimensões. Essas pessoas chegam a parecer mais hábeis, conquistadores de regiões conhecidas por poucos. Uma dessas pessoas, me contou como pousou um monomotor, no final da tarde, quase sem visibilidade, num barranco, na região da Serra Pelada. Qual de nós poderia narrar isso? Ou melhor, qual de nós sentiu o que esse piloto sentiu o calafrio, a boca seca, o medo de jogar o avião em alguma pedra, ou perdeu-se na imaginação do futuro de sua família, após sua morte? Mas aquela luscofuscante tarde só foi possível porque ele tinha a condição de ver. Reconhecia e acreditava nas próprias habilidades.

Existe um número infinito de pessoas que não enfrentam perigos, que não se arriscam muito, que não conhecem determinados sabores,, simplesmente, por não quererem. Eu já comi cacau, a fruta. Mas não sei descrever. Se não tivesse ido ao sul da Bahia, e colhido do pé, talvez não tivesse essa experiência pra contar. Alcançamos o que vemos, tocamos o que vemos, experimentamos o que vemos. Mas vou trocar o verbo ver por perceber. A percepção precede a experiência. E essa percepção pode ser enturvecida. Quando estamos nervosos, não conseguimos atravessar a rua direito. Nem tarefas simples como fazer o café ou lavar a louça, fazemos direito com a alma turbulenta.

Quem se apaixona avasaladoramente, tem seu senso de realidade abalado. É facilmente ludibriado, fica limitado, perde a visão, a percepção, e, fica paralisado, ou entra numa caixa. Da mesma forma, nosso abalo emocional, nossa falta de habilidade com nossas sensações, nós fazem andar passos curtos, e tornamo-nos bons andarilhos, mas as paisagens a ser descritas, são limitadas, por nunca termos querido subir num ultraleve. O interessante é que para muitos, basta. Pra que voar se eu posso chegar no mesmo ponto andando? Por causa da experiência. Essa experiência pode mudar TODA a nossa vida.

Assumir riscos não significa não ter segurança. Claro que, quanto maior o risco, menor a sensação de segurança. E isso é realmente solitário e produz ou incentiva a autonomização. E não seria a nossa busca final, deixar de ser dependentes e nos sentir cada vez mais livres, autônomos, como o meu amigo, em pleno ar, controlando o manche, sem enxergar quase nada?

Responda você: risco ou segurança, dependência ou autonomia? De qualquer forma, só vai alcançar o que sua alma, meio friamente, conseguir perceber. E como ativar ou desenvolver a percepção? Isso já é uma outra história!

Edney Melo

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