Temos medo de fazer perguntas. Não só perguntas difíceis. Qualquer pergunta. Mas as que temos mais facilidade de formular, são aquelas que direcionamos aos outros. Desconcertantes ou não, se são faladas enquanto apontamos o dedo para qualquer um, sentimo-nos isentos, quase controladores das situações que envolvem a pergunta. Mas quando somos as vítimas, quando temos que responder questões que mexem com nossas decisões, nossos conflitos, nossas relações, nosso passado, nosso futuro, tudo muda. Eis aqui uma pergunta extremamente desconcertante: No ponto em que está na sua vida, olhando para o fundo do poço do seu coração, parando dois minutos para pensar, em silêncio, você não acha que vê alguma coisa que precisa mudar, de uma segunda chance? Tive que responder a essa pergunta, obrigado por uma encruzilhada existencial.

Pelo fato de vivermos na geração Google, encarando milhões de linhas de informação, incontáveis mensagens nos grupos do Whatsapp, encontros, compromissos, a ânsia por produzir cada vez mais, acima do limite anterior, para não ser descartado no trabalho, acabamos por ter que responder à pergunta anterior, empurrados pelas circunstâncias, exaustos e esgotados emocionalmente. Fugimos das perguntas difíceis, e mais ainda das respostas. Porque quando temos um ponto de interrogação, muitas vezes, também temos uma pá ao lado. Somos compungidos a cavar, revolver a terra, olhar velhas fotografias e tocar tecidos rasgados de roupas usadas, mal enterradas. Dói. Mas sabemos que é necessário e, mais cedo ou mais tarde, não importando o quanto corramos disso, será tornar inevitável.

Depois que enfrentei a pergunta acima, primeiro através de lábios amigos e depois, marteladamente, em minha própria cabeça, tive que ligar, o que um bom conselheiro, inusitado e causal, chamou de GPS (existencial), e levá-lo a “recalcular a rota”. O que nem sempre leva ao destino e caminhos que estipulamos antes.

Hoje, estou mais leve, percebi que a maioria das decisões importantes são simples e não devemos ter tanto medo de decidir. De fato, temos medo das consequências e é isso o que faz com que adiemos as perguntas e as respostas. Não somos donos de nenhuma verdade. Nem sobre nós mesmos. Tentamos mostrar que não temos nada para provar. Mas é só o que tentamos fazer.

Poderíamos levar a vida mais despretensiosamente, sendo menos duros e criteriosos, desacelerar, olhar mais para o caminho e menos para o horizonte.

Talvez, assim, consigamos fazer as perguntas certas, sem tanto medo de responder direito, deixando que elas surjam, “quase sem querer”.

Edney Melo

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