Quando Ricardo Gondim pediu para escrever minhas impressões a respeito do longa-metragem A Vila, achei que seria uma dessas tarefas que a gente, acostumado a resenhas, tira de letra. Na verdade, tornou-se um trabalho muito mais denso e desafiador do que eu esperava. Foi realmente interessante me deparar com essa parábola cinematográfica. O filme foi lançado dia 3 de setembro de 2004, três anos após o ataque às Torres Gêmeas, no mesmo mês, no dia 11. Por causa disso, também é considerado uma mensagem do diretor M. Night Shyamalan para o Bush Júnior. É claro, que a nação americana somente foi ao Iraque, ou o reelegeu, por causa do terror imposto por seu governo a todo povo americano. E esse terror que isola é amplamente explorado por Shyamalan. Ele é o mesmo diretor de O Sexto Sentido, cujo grande truque de marketing era o segredo a revelar-se no final. Com o A Vila não é diferente. Por isso, é difícil analisar o filme sem revelá-lo. Não vou conseguir. O paralelo entre o que ocorre na tela e o que vivemos hoje na religião evangélica brasileira é inevitável.

Covington é o nome do vilarejo, construído no meio de uma floresta, na zona rural do Estado da Pensilvania, em 1987, cuja população de apenas 60 pessoas, é isolada de qualquer contato com outras comunidades, ou até com o mundo, por causa de criaturas míticas, vistas, a princípio, apenas pelos patriarcas da vila. Também há um romance, mas eu o ignorarei, para deixar alguma coisa para quem não assistiu ver.

Os costumes, a linguagem, a realidade social e o tempo dentro da Vila dos Evangélicos são diferentes dos de fora dela.
Não há, quando assistimos às primeiras cenas, uma referência clara quanto à época na qual é inserido o contexto do filme. Na verdade, os dirigentes da cidade, detentores dos segredos que levavam à sua instituição, criaram uma política de restrições e proibições, que impedia os pouquíssimos moradores de sair dos limites da cidade ou sequer saber da existência de um mundo exterior. Que, obviamente, também não podia comunicar-se com a vila.

A Vila dos Evangélicos é assim. A religião isola completamente os moradores. O tempo passa diferentemente dentro do vilarejo. A ciência, as novidades na comunicação, a moda não são acompanhados. Na verdade existe todo um sistema organizado dentro da vila-gaiola que mantém os de dentro “satisfeitos”. Estive assistindo a um desses canais evangélicos, desses concedidos por lobby com político eleito por igreja, e ouvi uma senhora, avidamente, defendendo a criação de um programa evangélico de humor. Eu ri da piada! Imaginei que tipo de quadros poderiam ser criados com algum personagem bíblico. Que tal um sitcom com a família de Jacó? Na hora achei que a religião já havia ido longe demais. Depois, entendo que é apenas mais um mecanismo de isolamento. Emissoras de rádio e de televisão, condomínios, clubes, gravadoras, tudo isso acaba se tornando “almofadas” para fazer o isolamento mais confortável. Não estou defendendo que não haja empresas de religiosos. Acho que estas não devem nos isolar do mundo, mas nos aproximar dele.

Vivemos, como disse Elienai Cabral Júnior para mim recentemente, dentro de bolhas. Somos como aquele garoto que o Fantástico mostrou na década de 1970. Porque não podia expor-se ao ar puro. Não tinha resistência orgânica. Paradoxalmente, para pessoas que não tenham uma síndrome como essa, é exatamente a exposição que cria resistência do organismo às impurezas. Devo fugir da impureza, mas não dos impuros. As pessoas não são inimigas. Podem nos afetar (e afeto é bom!). E serem afetadas por nós sem prejuízo, sem culpa.

O Horror mantém os moradores da Vila como estão, até que alguém se atreva a enfrentá-lo.
Para manter os moradores obedientes à inquestionável tutela fundamentadora(lista?), criou-se um horror inexpugnável. Criaturas tão terríveis poderiam destroçar qualquer desavisado que se atrevesse a sair dos limites da vila. No entanto, Lucius, um jovem morador, nascido na vila, questiona esse medo coletivo e se atreve a tentar enfrentar esses “dogmas(?)”.

Essa referência me faz lembrar de um texto anônimo que li sobre a estória, verdadeira ou não, de uns cientistas que escolheram 3 macacos para uma experiência que consistia no seguinte: Eles eram colocados em uma sala que continha uma escada no centro e um cacho de bananas pendurado no teto, logo acima da escada. Quando eles subiram, famintos, a escada, uma mangueira com uma fortíssima corrente de água jorrou contra eles e os derrubou da escada antes que pegasse o cacho. Assim, cada vez que tentavam subir a escada, enfrentavam aquele sortilégio. Algum tempo depois, os cientistas trocaram um dos macacos por um que não sabia nada sobre a mangueira. Quando o pobre coitado tentou chegar até o cacho, os outros dois partiram pra cima dele e o espancaram com tudo o que podiam e ele desistiu de subir e ninguém se molhou. Assim, seqüencialmente, trocaram um segundo macaco, o novo apanhou do mesmo jeito que o anterior, que batia no coitado com requintes de crueldade. Em seguida, trocaram o único que tinha experiência com a algoz mangueira. Quando esse último tentou subir a escada, os outros dois quase mataram o desavisado. Moral da história: No final, batiam sem nenhuma reflexão. Não sabiam nem porque apanhavam, nem porque batiam. Pouquíssimos são os Lucius que ousam questionar a religião. Quem se levantará?

O desencanto é bom. Depois que a gente se acostuma, pode abrir os olhos para o que antes estava oculto. Há vida fora da vila.

A grande surpresa do filme é exatamente a descoberta de que as criaturas foram criadas pelos dirigentes da vila. Isso é atroz! Quem queria me defender é quem me aprisionou por todos esses anos! A religião evangélica tem sido verdadeira somente na etimologia (Religare, lat. re-ligação a Deus). Abandonar os celeiros como patos domésticos e tornarmo-nos patos migradores selvagens é um movimento que envolve desencanto e dor. Reconhecer que havia uma geração inteira a se conhecer, automóveis e TV, que nem sabiam da existência, provocou em quem saiu da vila uma experiência estarrecedora, mas necessária. Poder levantar a cabeça e saber que poderíamos estar voando é fascinante!

Para quem ainda não leu Religião e Repressão, de Rubem Alves, gostaria de deixar um trecho, longo, confesso, do comentário dele mesmo sobre a obra, que daria o real tom para essa reflexão.

“Não me recordo o nome do autor. Mas não importa. O texto vale por ele mesmo e não pelo nome daquele que o escreveu. Eu o reconto com as minhas palavras.

Havia um bando de patos selvagens que voavam nas alturas. Lá em cima era o vento, o frio, os horizontes sem fim, as madrugadas e os poentes coloridos. Tão lindo! Mas era uma beleza que doía. O cansaço das asas, o não ter casa fixa, o estar sempre voando, as espingardas dos caçadores…

Foi assim que um pato selvagem, olhando lá das alturas para essa terra de anões aqui em baixo, viu um bando de patos domésticos. Estavam tranqüilamente deitados à sombra de uma árvore, poupados do esforço de voar. E havia comida em abundância.

O pato selvagem invejou os patos domésticos e resolveu juntar-se a eles. Disse adeus aos seus companheiros, desceu e passou a viver a vida que pedira a Deus.

E assim viveu por muitos anos até que de novo chegou o tempo da migração dos patos. Eles apareciam, lá no fundo do azul do céu, formações em “V”, grasnando, um grupo após o outro. Aquela visão dos patos em vôo, a memória das alturas, aqueles grasnados de outros tempos começaram a mexer com algum lugar esquecido dentro do pato domesticado.

Uma saudade, uma nostalgia de belezas, o fascínio do perigo e o vazio que se abria… Até que não foi mais possível agüentar. Resolveu voltar a ser pato selvagem. Abriu as asas e bateu-se para voar, como outrora, mas não voou. Caiu, esborrachou-se no chão.

Estava gordo demais. E assim passou o resto de sua vida: em segurança, protegido pelas cercas e triste por não poder voar.

Acho que Fernando Pessoa se sentiu um pouco como o pato. Pelo menos é o que sinto ao ler esse poema:

Ah, quanto vez, na hora suave
Em que não me esqueço,
Vejo passar o vôo de ave
E me entristeço!
Por que é ligeiro, leve, certo
No ar de amavio?
Por que vai sob o céu aberto
Sem um desvio?
Por que ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade
Um horror de me ter que cobre
Como uma cheia
Meu coração, e entorna sobre
Minh’alma alheia

Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei quê do vôo suave
Dentro em meu ser.

Somos assim. Sonhamos o vôo, mas tememos as alturas. Para voar é preciso amar o vazio. Porque o vôo só acontece se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Os homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso trocam o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.

(…) Por que deveria qualquer pessoa, inflexivelmente convencida da verdade exclusiva dos seu conceitos relativos a qualquer e a todas as questões, estar pronta para tolerar idéias opostas? Que bem ela pode esperar de uma situação em que cada um é livre para expressar opiniões que, segundo o seu julgamento, são patentemente falsas e, portanto, prejudiciais à sociedade?

Por que direito deveria ela abster-se de usar quaisquer meios para atingir o alvo que julga correto? Em outras palavras: consistência total equivale, na prática, ao fanatismo, enquanto a inconsistência é a fonte da tolerância.

[…] Temos de notar que a humanidade tem sobrevivido somente graças à inconsistência […] a raça das pessoas inconsistentes continua a ser uma das maiores fontes de esperança de que a espécie humana conseguirá, de alguma forma, sobreviver.

Leszek Kolakowski, “Em louvor à inconsistência”.

A tentação dos absolutos é uma característica universal do espírito humano. Todos queremos possuir a verdade. E para possuir a verdade é preciso que se a engaiole. E para engaiolar a verdade é necessário engaiolar a liberdade e o pensamento….”

Concluiria com um convite de Deus e uma pergunta, respectivamente, em Isaías 1.18 e 6.9:

“Venham, vamos refletir juntos, diz o Senhor.” E “quem enviarei? Quem irá por nós?”

Quem responderá: Eis-me aqui. Envia-me!”?

Eu quero dizer que sou um desses.

EDNEY MELO

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