Eu sempre fui fascinado pelos filmes de viagem no tempo. E o mais interessante deles, na minha opinião, é Efeito Borboleta*. Nesse, em vez de uma máquina do tempo que leva o personagem fisicamente através do tempo, temos o viajante acessando seu passado apenas em sua consciência: o fato original no passado, e ele, lá, com a mente e a maturidade do presente. Já imaginou, você, na pré-adolescência, com a visão de mundo de hoje, para mudar ações suas da época, e poder voltar ao presente e ver o que desencadeou? No filme as conseqüências são sempre é crescentemente catastróficas. Ops! Alerta de spoiler! 

Apesar de todas as teorias científicas de relativação de tempo e espaço, na vida ainda tudo isso não passa de ilusão. Temos que conviver com as bagagens emocionais geradas por tudo que fazemos ou fizeram a nós no decorrer dos anos. No entanto, o princípio que norteia todas as obras de ficção sobre viagem no tempo é o mesmo. O passado tem lacunas, espaços abertos, os quais tentamos acessar para mudar nosso presente. O tempo todo, tentamos dar uma olhada lá. Como quem vai à biblioteca, abre um livro de história e tenta reescrevê-lo. Mas não é possível. Somente podemos lidar com o que temos.  

Nossas bagagens são o que nos definem. Abrir nossas malas para rever o que acumulamos é uma tarefa difícil. Ora tomamos nas mãos um sapatinho de bebê que nos faz desaguar nossa alegria, ora vemos uma foto de uma viagem ao lado de um amor perdido, que nos aperta o coração. Tantas interrupções, tantos textos inacabados, melodias sem letra… Olhamos para todos os objetos espalhados que tiramos da mala. Cada um apontando para um futuro diferente. Quase como se não pudéssemos escolher. Ou, em outro extremo, lamentamos não chegar onde queríamos por termos decidido mal.

Fechamos a mala como se isso fizesse o passado sumir. Mas as sensações voltarão. Basta abrirmos aquela mala de novo. Mas existe uma forma de olhar mudar isso? Que tal abrir a mala com uma outra atitude? Por que exigir de nós mesmos carregar futuros que nunca acontecerão? Os passos são mais curtos quando levamos bagagens pesadas. Vamos encontrar um lugar arejado, tranquilo e iluminado para guardar nossos objetos antigos. Vamos tratar nossas mãos encaliçadas para afagar novos rostos. Vamos deixar aqueles futuros para trás. Vamos subir em um balão ou andar de bicicleta! para sentir novos cheiros e ver novas paisagens. Se tantas coisas inusitadas trouxeram-nos até aqui, mais leves, onde poderíamos chegar, sem tentar reescrever o passado, mas deixá-lo em paz e começar uma novo texto, uma nova melodia? Talvez uma letra nasça para essa canção. E vai ficar ótima. Se não, faremos outra.

“Temos que estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos, para desfrutar da vida que nos aguarda.” Joseph Campbel

Liberdade não é carregar algemas quebradas olhando ao longe para a casa grande, com uma carta de alforria na mão. Liberdade é a condição de escolha, pessoal e intransferível, do que se pode construir, enquanto se olha o horizonte.

EDNEY MELO

* http://pt.m.wikipedia.org/wiki/Efeito_borboleta

  

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