Ela entra no closet e, de repente, a realidade se altera, quando abre aquele frasco de petrume. O aroma transforma aquele cubículo em um salâo, graciosamente iluminado, com vários casais, sob Danúbio Azul, dançando, alguns sorridentes, outros, meio nervosos, tentando nao pisar nos pés de seus parceiros. Percebeu o olhar discreto do seu amor em direçâo ao seu decote no vestido que acabara de retirar do cabide. Viu uma quase desfeita marca de anel em seu dedo. Logo achou a caixinha preta e abriu-a. Estava vazia. No entrecortar de cenas, com texturas, sons e cores do presente e do passado, ela , agora sentada naquela escada na faculdade, diz sim. Toca a própria boca, enquanto vê aquele batom e sente o calor de um beijo que parecia esquecido.

Mexeu na prateleira de cima e caiu aos seus pés um patinho de borracha. Começou a ouvir as gargalhadas e os gritos das crianças em uma grande piscina. O cheiro do cloro se misturou ao do protetor solar, que agora na sua mâo,; passava nas costas de um menino inquieto, louco para correr para perto das outras crianças. Ela sorriu e até fechou os olhos imaginando aquele abraço carinhoso do menino que se despedia pra ir brincar.

Olhou pra baixo, perto de onde havia caïdo o patinho e abaixou-se. Notou aquela pequena arca de madeira. Seu coraçâo apertou-se, como se comprimido dentro de um punho. Pareceu que isso o fizera acelerar. Mesmo assim, como se compelida por algo maior do que ela, puxou a caixa pesada para perto de si. “Quem gosta de sofrer?” – Pergunta a si mesma, levantamdo a tampa. Os sons que vêm da caixa não são uniformes. A polifonia se une à infinidade de odores fizeram fluir uma cachoeiras de lembranças, tantas que ela quase não distinguia as boas das ruins, devido à força com que assolaram sua mente. Lágrimas mornas molharam aquelas fotos. Tentando organizá-las, achou no fundo, o anel que faltava na caixinha preta. Enxugou o rostoe, e, calmamente, tentou colocar novamente em seu dedo. Estranho não conseguir mais colocá-lo, como se pertencesse à outra pessoa.

Ela colocou o anel na caixinha, colocou-a na arca, juntamente com o vestido e o batom. Pegou outras malas e começou a esvaziar outras prateleiras. Quando ele chegou, ajudou a tirar aquelas coisas de lá.

Abriu as próprias malas e passou a preencher os espaços vazios com suas roupas. Ela, sentada, com as duas mãos no queixo, observa com um brilho nos olhos,sorrindo levemente. Ele pára o que estä fazendo e, com um aceno, convida-a para ajudá-lo. Ela se levanta e os dois continuam a arrumar tudo ali. Ele percebe o patinho de borracha no chão, com naturalidade, apanha e coloca brinquedo em uma prateleira, entre as suas coisas.

O Closet, aquele portal transtemporal, ficaria ali. Mas agora ele mostraria o futuro.

Edney Melo
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