4 Levantou-se então da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e amarrou-a na cintura. 5 Depois derramou água numa bacia e começou a lavar os pés  dos discípulos e a enxugá-los com a toalha da cintura.

Evangelho de João Capítulo 13

O lava-pés e uma simbologia. Simbologia é algo visível que explica o que as palavras não conseguem. Não é ritual. Porque o ritual tem significado, mas a mecânica tende a impedir, pela tendência a fazer sem refletir, a mudança do proceder. No ritual somos presos à forma, não ao conteúdo. Na simbologia somos presos ao conteúdo, não à forma. O lava-pés é uma parábola encenada pelo próprio Jesus. Ele vivificou, a meu ver, quatro símbolos fortes que trazem sentido à própria existência humana.

A Simbologia dos Pés

5 Depois derramou água numa bacia e começou a lavar os pés (…)

Conta-se de uma missionária fugindo da perseguição comunista pelas florestas da China, no século passado. Exausta, ela, de pés descalços e maltrapilha, se esgueirava entre as árvores ferindo-se mais e mais por causa das pedras, das raízes e dos espinhos. Conseguiu chegar a uma aldeia evangelizada por ela e entra em uma das casas de uma família já alcançada pelo Evangelho. É abrigada, aquecida, tem seus pés feridos, encaliçados e doloridos cuidadosamente colocados em uma bacia com água e lavados por uma menininha que os regando com suas lágrimas e não cessava de dizer: “Eu te agradeço, Senhor, por esses pés que trouxeram a tua Salvação para essa casa”.

Os pés são os a simbologia para os nossos caminhos, da nossa história escrita, dos traumas sofridos, das boas experiências, das más experiências. O Senhor ordenou a Moisés:  “Não te aproximes daqui! Tira as sandálias dos pés, pois o lugar onde estás é chão sagrado”. (Ex 3.5b) O caminho de Moisés era
escuso. Assassinato, auto-depreciação, violência, covardia marcaram a sua trajetória. Deus estava dizendo: “Deixa a tua história para trás. Quem está aqui vai mudar o teu futuro”. Os pés são o que produzi, em quem me tornei.

A Simbologia da Água

5 Depois derramou água numa bacia (…)

Água é símbolo para limpeza, refrigério, renovo. Para o esquecer o passado sob a perspectiva de que agora pode haver mudança. A água é a simbologia para o revigor e a esperança. Quando nos banhamos, cansados, somos revigorados. Quando nos banhamos, sujos, assumimos um novo caráter. Da sordidez à honra, da imundície para resplandecer. A água é a vida na qual os fatos nunca se repetem. Água é a possibilidade da reconstrução.

A Simbologia da Toalha

… começou a lavar os pés  dos discípulos e a enxugá-los com a toalha da cintura.

A toalha enxuga, acaricia, conforta. Jesus tocou seus discípulos.  O toque através da toalha macia era o carinho de Deus por aqueles homens rudes. Alguns acostumados à violência por suas causas políticas, outros céticos por causa da lógica, ou acostumado a servir como vassalos do império e sem honra entre os seus. Alguns acostumados ao mau cheiro de peixes e a experiências que os tornaram amargos, que há muito lhes tiraram a ternura.

A toalha é a resposta de quem se preocupa. O toque do próprio Deus-homem em mim, que vem amim, sem que eu o chame e tem contato comigo. É o cuidado de quem ama. É a atitude que pede um: “Não precisava, muito obrigado”.  É um mimo, um capricho de Jesus.

A Simbologia do Escravo

4 Levantou-se então da mesa, tirou o manto, tomou uma
toalha e amarrou-a na cintura.

As ruas empoeiradas da palestina deixavam suas marcas nos pés dos pedestres daquela época. Quando chegavam a casa, eram recebidos – os que tinham posses – por escravos preparados com uma toalha à cintura e uma bacia com água. O Verbo de Deus, o Pão da Vida, o Sol Nascente das alturas, o Pai da
Eternidade curvado, com uma toalha à cintura lavando os pés dos seus servos. O Maior abrindo mão da sua Grandeza. O Eterno servindo o mortal. O Autor dos mais complexos sistemas interplanetários com estrelas sob o seu comando, ajoelhado diante de homens que deveriam reverenciá-lo.

A simbologia do escravo é o abandono dos preconceitos. É o assumir do serviço sem exigirem. É simplesmente fazer por menores como menor do que eles. É tornar-se o menor, “o qual, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se” (Fp 2.6). Jesus assumiu um personagem completamente fora de seus atributos para mostrar que tudo é possível. Até ser servido por Deus.

Um Poema Anônimo

Tu sabes, Senhor, como eu Te sirvo,

Com enorme fervor emocional,

Quando estou debaixo dos holofotes.

Sabes como falo de Ti ardentemente

Na reunião das senhoras.

Sabes com que entusiasmo eu promovo uma reunião

De confraternização.

Sabes do meu sincero fervor quando estou num grupo de

Estudo Bíblico.

Mas como será que eu reagiria

Se tu me desses uma bacia de água,

E me pedisses para lavar os pés

Calosos de uma velhinha enrugada,

Arqueada todos os dias,

Todos os meses, num lugar recluso,

Onde ninguém visse e ninguém soubesse

Que eu estava a  fazendo aquilo?

Como seria o meu cristianismo?

Autora Desconhecida

A Simbologia do Lava Pés é tudo isso e muito mais. Muito mais porque Jesus não explicou nada, Ele fez. E quando se faz, é difícil definir. É difícil traduzir em palavras. É como definir a vida, o amor ou o perdão. Jesus não estava ensinando o que fazer. Ele estava sendo o exemplo de um conceito de vida. Vida temporal e vida eterna.

EDNEY MELO

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